domingo, 26 de julho de 2026

Inadequada


Não consegui dormir muito bem essa noite. Acordei algumas vezes, inquieta, pensativa, como se algo borbulhasse dentro de mim pedindo atenção. Embora fosse manhã de domingo, às 5h decidi me levantar. Me deixei ali, jogada no sofá, olhando pela janela, refletindo sobre a vida, sobre quem sou, em quem me transformo, em quem definitivamente não desejo ser.


Não desejo ser, por exemplo, alguém que o faça mal, que o faça perder tempo (a hora sim, mas o tempo não). Estive pensando, talvez gerar desafios a alguém não seja algo tão ruim assim. Eu, pelo menos, gosto de ser desafiada. E a cada um deles vencido, me sinto mais forte, mais capaz, mais resiliente. E quando a vista é bonita depois de chegar ao topo da montanha, eu percebo que valeu muito a pena cada segundo. Se enquanto subia, eu percebia a vegetação, os pássaros, as flores, sentia a brisa tocar meu rosto, o sol queimar minha pele, contemplar uma bela vista faz ainda mais sentido.


Ontem, depois da nossa conversa, algo em mim saiu do lugar. Me senti sem chão, perdida, sem rumo, sem prumo, inadequada. Sinto como se eu ocupasse agora um “não lugar”, como se lugar nenhum me comportasse. Eu já não caibo mais em muitos lugares e sinto que para o lugar que me destinam talvez eu não seja exatamente o que gostariam que fosse.


Enquanto olhava para o céu, desejei que ele estivesse ali, comigo, na minha cama, me esperando voltar. Doeu tanto vê-lo sair pela porta, numa despedida fria, que não é a nossa. Meu desejo era que ele ficasse, que nos amássemos longamente e talvez cochilássemos um pouco, porque quando estamos juntos, falta tempo para dormir. Logo depois que ele se foi, chorei. Chorei porque sinto que não o tenho como gostaria. Chorei porque mais uma vez me sinto insuficiente, apesar de todo o movimento até aqui. Me sinto desajustada, pequenininha e toda vez que me sinto assim doi tanto.


Hoje, decidi tirar o dia para mim, quietinha em casa. Talvez seja momento de silêncio para ouvir essa voz que às vezes sussurra baixinho. Talvez seja tempo de buscar meu lugar ou construí-lo. Mesmo inadequada e insuficiente, quando me conecto comigo reencontro lugares em que sou tão grande, em que não preciso me apertar ou me esticar para caber, espaços em que minha presença não requer paciência. E então volto a crescer. E isso me dá tanto alívio. 


Olhando para o céu, faço um único pedido. Desejo que a vista para ele faça valer a pena os desafios da subida porque a minha paisagem faz valer a pena cada segundo e, por isso, volto a subir a mesma montanha todos os dias.



segunda-feira, 20 de julho de 2026

Te quero "cerca"

Vem para cá

que a vida nos espera.

O tempo passa

e eu te quero “cerca”.


Vem comigo aonde eu for.

Para minha vida.

Para o meu mundo.

E fica.


Traz seus medos,

seus silêncios,

suas histórias guardadas.


Deixa fora

o que pesa, 

o que aperta,

o que prende.


Aqui dentro 

A gente sabe ser inteiro

e o que não souber

a gente aprende.


Fica nos meus dias comuns,

nas sextas sem planos,

nas noites de insônia

nos abraços sem fim,

nos convites improvisados

nos beijos roubados

pro almoço,

pros café, 

pro jantar, 

pra cama.


Vem,

se acerca de mim,

deixa eu te cuidar,

conhecer seus avessos,

suas idiossincrasias.


Chega mais perto.

Encosta sua vida na minha.

Eu te quero “cerca”

do meu mundo

dos meus dias

nos meus braços 

na minha cama

na minha casa.

Fica.
E me habita.




 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Amor real


Naquele dia, não por acaso, ela tinha a sensação de que algo mudaria a sua vida para sempre. Ao se levantar, vestiu sua blusa azul cor do céu com os dizeres “bonjour madame”. Não sabia bem por que, mas achava que aquela cor lhe caía bem. Os brincos de rosas brancas combinavam com sua pele negra e os cabelos soltos davam volume para o seu rosto, escondendo, às vezes, seus olhos negros e tímidos.


Antes de sair de casa, passou no pescoço e punhos seu óleo essencial de alecrim, um dos seus preferidos. Conferiu a roupa no espelho, janelas fechadas, luzes apagadas, puxou a mochila e se foi. Algo vibrava diferente dentro de si. Era primavera, a estação do seu aniversário. Ela gostava daquele clima de quase verão. O dia estava ensolarado e os ipês ainda floridos. 


No trabalho, cumprimentou quem encontrou no caminho e se dirigiu até sua sala para a jornada de todo dia. No intervalo para o almoço, desceu até o terceiro andar para a aula de pandeiro que acontecia às terças. No caminho, encontrou seu professor, que aparentemente triste, lhe deu um sorriso amarelo, na tentativa de disfarçar um dia ruim. Num ímpeto, ela lhe perguntou se tudo bem. Pela resposta que recebeu, percebeu que não. Ela quis abraçá-lo, mas lhe faltou coragem. A aula seguiu como de praxe. 


Na volta para sua sala, uma mensagem, do professor, que dizia: “obrigado por me enxergar”. Sem entender nada, ela apenas lhe respondeu que desejava que ficasse bem. Depois daquela mensagem, todo o seu corpo arrepiava quando o encontrava. Embora às terças, do meio-dia às 13h, ele fosse seu professor de pandeiro, nos outros momentos eram colegas de trabalho, que se esbarravam sempre pelos corredores em cumprimentos evasivos e furtivos. 


Ela sentia que desde aquele dia, ele também a olhava diferente. Passaram então a se abraçarem quando se encontravam. O toque dos corpos causava, nela, uma sequência de fogos de artifício que explodiam por dentro. Passaram, então, a trocar mensagens, livros, presentes, olhares, sorrisos, convites. O primeiro deles foi um café. Se deixaram ali, jogados, por horas, conversando desde filosofia e assuntos profundos a amenidades e besteiras. Faziam piadas um com o outro, riam de si mesmos. Toda vez que ele a tocava, seu coração quase escapava pela boca.


Esse foi o início da sua grande e mais longa história de amor real. Um amor que não nasceu de promessas e grandes feitos, mas de um olhar sincero, capaz de reconhecer no outro uma parte de si. Entre um convite e outro, um olhar e outro, um encontro e outro, o desejo e a vontade encontraram morada no afeto, no respeito, no amor de verdade. Um amor que ainda os habita e que todos os dias escolhe ficar.

 


quinta-feira, 2 de julho de 2026

O que você faria?

E se eu te convidasse para morar comigo? Sua resposta seria um “sim” ou um “não”? E se eu quisesse te apresentar para toda a minha família como meu namorado? De repente, te convidar para os aniversários, para as festas de fim de ano, para os feriados prolongados, os churrascos, as bagunças. Você toparia? E se eu quisesse me casar com você? E se viajássemos apenas nós dois em lua de mel? Seria possível planejar um futuro só você e eu? Já pensou se eu quisesse um filho com você? Uma vida com você? A eternidade com você?


E se eu te disser que não consigo mais, que não é possível mais, que não suporto mais? E se eu te disser que quero mais, que preciso mais, que mereço mais, que espero mais? E se eu te disser que só consigo chegar até aqui, mas que não é possível avançar mais? Se eu te disser que ficou difícil depois que demos um passo à frente, que o lugar que ocupo já não me cabe mais, que já não sou mais a mesma? E se eu te disser que quanto mais me aproximo, mais longe te sinto, mais escassos se tornam nossos momentos a dois e que se estou aqui até agora, é por você, por nós, para estarmos mais perto um do outro, mas que não tenho visto isso acontecer.


Se eu te disser que quanto mais me aprofundo em nós, me aprofundo em mim e quanto mais me conheço, menos me reconheço aqui? E se eu te disser que o que desejo mesmo, talvez você não possa me dar? Se eu te disser que mesmo confusa, algumas certezas permacem, meu desejo por você permanece, algumas certezas do início permanecem. Se eu te disser que venho lutando contra o fim já há algum tempo e que às vezes doi? Doi seguir como estamos, mas doi também não te ter mais.


Se eu te disser que não deixaria de te amar, que você seguiria em mim, que você tem meu coração por inteiro, que tudo o que temos é forte demais para se apagar? Que seguiremos conectados, que meu pensamento é seu. Que eu te quero mais que tudo nessa vida, que aprendi o que é o amor com você. Isso faria diferença? E se eu te disser que te amando aprendi a me amar e que me amando já não é mais possível ficar? Diante de tudo isso, o que você faria?


 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Só para você saber


Só para você saber, hoje a saudade invadiu meu lar. Ela encontrou em mim todas as lacunas que você deixou e ocupou todo o espaço que permanecia à sua espera. Ela caminhou por cada um dos cômodos, revisitou memórias, reacendeu desejos, despertou cheiros, sabores e ali permaneceu. Me senti invadida como quem chega em casa e encontra a porta aberta. Eu jurava que a tinha trancado, eu tinha certeza que você seguia do lado de fora. Mas hoje a saudade me provou que não, que eu estava errada, que sua memória entra pelas frestas, que seu cheiro segue grudado no meu travesseiro, que seu toque único está em todo lugar. 


Só para você saber, tentei distraí-la, fingir que não me importo, que sua presença é insignificante, mas ela, insistente, incansável, relutante me trazia você de volta em cada detalhe. E por isso, hoje, tudo me lembrou você: a água quente do chuveiro, a vista da janela, os chinelos jogados pelo chão, meu rosto refletido no espelho, o barulho da rua, o sofá, a mesa, a cama. 


Só para você saber, há dias em que a sua ausência dói mais do que consigo suportar. Finjo normalidade a falta que você me faz, digo que está tudo bem e minto para mim buscando sentido em coisas sem sentido. Há dias que meu corpo inteiro sente falta do encaixe com o seu, do calor dos seus beijos, da paz que só encontro no seu peito. Há dias em que tudo parece vazio demais, sem graça demais, silencioso demais. É assustador como sinto falta do seu olhar, que me desmonta, me desmorona, me desnuda e me deixa aos pedaços, em ruínas. 


Só para você saber, você atravessou minhas defesas mais profundas e despertou em mim lugares que eu mesma desconhecia. Até meus silêncios carregam você. Há você em tudo. Até os dias mais comuns conservam o extraordinário porque de alguma forma está você, na memória, no desejo, na saudade. Só para você saber, apesar da distância, apesar do desalinho do tempo, existe algo em mim que segue te escolhendo, todos os dias. E o mais bonito em tudo isso é que também, do lado de lá, eu nunca precisei te pedir para ficar. E mesmo assim, a cada dia, te sinto mais presente e mais intenso em mim.




segunda-feira, 18 de maio de 2026

O que ficou do ontem

 

Hoje, ao sair de casa, encontrei nossos chinelos sob a mesa, despretensiosamente alinhados. Embora a chave já se encontrasse no trinco da porta, demorei para abri-la, enquanto parada, os olhava absorta, o pensamento no ontem. Os meus, rosa; os seus, azuis. Os meus, à esquerda; os seus, à direita, distantes um pouco, mas desejosos. Ambos ligeiramente na diagonal, em sentidos opostos, como se cruzassem olhares, como se quisessem se tocar. Pude perceber que conversavam, longamente, desde o momento em que foram deixados ali. Arrisco dizer que passaram a noite em claro, numa conversa sem fim. Naquele momento em que os vi, seguiam se olhando, havia ar de interesse e desejo. A conversa seguia. 


Ali, eles nos refletiam. Representavam dois corpos que se querem muito, sempre, o tempo todo, a todo instante, como se o amor pedisse urgência. Queria poder ficar com você assim como eles, sem que nos interrompam ou até que alguém os recolha e os guarde, como testemunhas do que vivemos ontem. Dessa vez, não serei eu a infeliz a pôr um fim à felicidade dos dois. Deixarei que fiquem ali, o tempo que for preciso, até que nossos pés os calce novamente e inevitavelmente voltem a se encontrar.


Ainda no ontem, parada diante dos dois pares de chinelo, me lembrei de como o tempo se dissolve quando estamos juntos, e como há algo de mágico em existir ao seu lado, em como nunca quero vê-lo partir e que inveja eu sentia daqueles chinelos que, diferentemente de nós dois, puderam atravessar a noite juntos e passarão também a manhã e a tarde e de novo a noite sem que ninguém interrompa aquela conversa silenciosa. Porque, pelo menos por enquanto, ainda precisamos partir. Já eles não.




Seis meses

 

Hoje se completam seis meses de um encontro transformador. Desde então, não sou mais a mesma. Me sinto outra, mais madura, mais mulher, mais autêntica, mais aberta à vida e suas surpresas, pronta para viver tudo o que o Universo tem a me oferecer. Ele tem esse poder de transformar as pessoas ao redor. Seu amor tem o poder de curar. E é assim que me sinto, hoje, seis meses depois: transformada, curada.


Os nossos encontros são sempre assim, recheados de amor, de encanto, de entrega, de vontade, de alegria, de desejo, de emoção. Me entrego a ele sem medo porque confio em seus braços. Com ele por perto, me sinto encorajada para ir além, sem limites, sem fronteiras, sem demarcação. Por ele, quero correr riscos, desafiar certezas, explorar o novo, colocar minha mão no fogo.


Há seis meses, desacreditada do amor, eu não imaginava o quanto poderia amar e ser amada, ser feliz e fazer alguém feliz, simplesmente por sem quem sou, sem máscaras, sem disfarces, sem fingimento. Assim, exatamente desse jeito, desarrumada, solta, risonha, bem boba às vezes, cheia de traumas e medos, meio militante, meio tímida, meio revoltada com o mundo. Hoje, essa Liliane deu lugar a uma nova versão, ainda boba, meio tímida, militante, revoltada, mas mais feliz, mais corajosa, mais segura, mais cheia de amor. E a cada dia me apaixono mais por ela.


Hoje se completam seis meses que o descobri, e descobrindo a ele, me descobri também. Hoje, por causa dele, aprendi o que é amar de verdade, fazer amor além dos corpos, mas com a alma, com o coração. Sinto que vivi em seis meses o que não havia vivido em uma vida inteira e sou tão grata e feliz por isso. Hoje sinto orgulho por ter me permitido viver esse amor, por me deixar ser amada por ele, por não me entregar às pressões externas e sim, ouvir a voz que pulsa aqui dentro de mim, clamando por amor porque ao encontrar o seu amor, hoje, seis meses depois, minha vida se enche de sentido.  Porque amar é isso, deixar que nos descubram, que nos desnudem, que nos transformem, que nos melhorem. E de repente, já não somos mais os mesmos, mas uma versão muito melhor de quem éramos para ele, para nós mesmas, para o mundo. 





terça-feira, 12 de maio de 2026

Inteira

 

Cada encontro nosso parece um evento, uma celebração, um brinde pela vida. Por mim, eu moraria ali, para o resto da vida. Nos nossos assuntos infindáveis, nas nossas risadas infantis, nas brincadeiras insistentes. Com ele, posso ser quem eu sou de verdade e isso torna tudo tão mais leve, tão mais fluido, tão mais gostoso. Sinto como se eu me preparasse a vida inteira para viver o que vivo agora, com ele, entregue, inteira, solta.


Quando chegada a hora da despedida, a gente não quer ir, a gente não quer se largar, se afastar, dizer tchau. E por isso, a gente enrola… e vamos nos deixando ali, como se fôssemos donos do tempo, como se as obrigações não nos esperasse, como se a vida fosse só festa e celebração. E confesso que gosto disso, de não corresponder as expectativas do trabalho, de chegar no final da manhã, de inventar desculpas para os meus atrasos, de me permitir ser um pouco irresponsável. Porque estar com ele é assim, me sentir adolescente, me sentir viva, sentir que a vida vale a pena.

Entre um encontro e outro, ele segue presente. Nas mensagens que trocamos o dia todo (de novo, como dois adolescentes), nas chamadas de vídeo ou voz, nas fotos que compartilhamos, nos áudios provocativos. Enquanto isso, a saudade aumenta. A vontade de estar perto vai ficando insuportável. O desejo de mais momentos juntos cresce. Fantasiamos nossos próximos encontros, como será, o que faremos, como faremos. 

Com ele por perto, a vida fica tão mais interessante. Tudo faz mais sentido. Nas nossas trocas e convívio, me sinto crescer, me agigantar. Gosto de me ver assim. Com ele junto, tudo se expande, o meu olhar alcança paisagens mais longínquas, percebo possíveis todos os meus sonhos, sinto fácil realizar tudo o que almejo. Ele me encoraja. Ele acredita em mim. Ele me apoia. E isso é tão lindo. Ele é lindo. Estar com ele é tão lindo. 

Ele me fez descobrir o amor verdadeiro. Ele me faz ser inteira, assumir para mim e para o mundo quem eu sou de verdade, sem medo ou receio. Estar com ele é isso: celebrar o inaudito, o comum e o incomum, a beleza do simples, a grandeza do agora, os prazeres comuns, as delícias do imprevisível, fazer descobertas de mim, dele, do mundo. Com ele, não é preciso me conter, me diminuir para caber, me esconder. Ao contrário, com ele, finalmente, posso ser muito, grande, imensa, sobrar e transbordar.



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Difícil

 

Te querer é fácil, difícil é aguentar sua ausência em mim. É um tormento não ter você por perto, não ter seus beijos todos os dias, nem seu olhar fixo em mim. É um sofrimento olhar para o lado direito da cama e não ter você, não ter suas mãos mim, não sentir o calor do seu corpo no meu, nem o som da sua respiração.


Te desejar todos os dias é fácil, difícil é ter que me despedir cada vez que você se vai. É não saber quando volta ou se volta. É a insegurança do futuro, do amanhã, do depois. É ruim o medo de te perder, mas pior é abrir mão de viver o agora com você com todas as alegrias e os prazeres que esse momento nos proporciona.


Te amar é fácil, difícil é suportar a distância imposta entre nossos corpos, é não poder te carregar comigo para onde quer que eu vá. Com você, aprendo que amar é liberdade, é escolha diária, é decidir ficar, mesmo quando ventos sopram em direções opostas. Tenho entendido que o amor não traz garantias, nem exclusividade, nem cobranças, nem imposições, mas traz decisão, desejo, vontade. 


Nem sempre é fácil, mas tem valido a pena todas as descobertas que tenho feito junto com você, todos os mergulhos internos e os externos também. Eu sinto medo às vezes, mas tenho aprendido a me lançar em espaços onde há cuidado, desejo e proteção, ainda que eu tenha compreendido durante uma vida inteira que o amor é algo diferente do que tenho vivido com você.


Entre o que é fácil e o que é difícil, entre o sonho e o possível, há você, há um amor que pulsa, há um desejo que arde, há vidas sedentas por viver. Te querer é fácil, te desejar é fácil, te amar é fácil, difícil é ter que me despedir toda vez que você se vai, é ter que esperar a volta, é lidar com a abstinência do seus beijos, da sua voz, do seu corpo, dos seus afogos e aguardar até que a gente exploda outra vez.




quinta-feira, 7 de maio de 2026

A presença da ausência

Hoje, acordei pensando em você. Te busquei do meu lado, na cama, e não te encontrei. Te queria comigo, corpo colado, as peles se tocando. Me permiti ficar ali por alguns minutos antes de me levantar. Me imaginei te dizendo algumas palavras de amor ao pé do ouvido. Você, ainda sonolento, ia se despertando… nos tocávamos e nos deixávamos imersos naquele momento, só nosso, como todas as manhãs que acordamos lado a lado.


Permaneci na cama por alguns minutos, insistindo em pensamento para que você se materializasse. Diferentemente das outras manhãs em que está comigo, hoje tudo parecia mais cinza, o dia mais triste, a casa mais silenciosa. Me forcei a me levantar e começar o dia, mesmo assim. A água quente do chuveiro queimava minha pele, carente da sua. O café parecia mais amargo do que de costume. A roupa amassada disfarçava a sua ausência em mim.


Te carreguei em pensamento durante todo o dia. Seu rosto, sua voz, sua pele, seu sorriso me invadiam a cada instante me lembrando onde mora a felicidade. Sua imagem me faz ter certeza de que nada mais vale a pena se você não está. Passei o dia assim entre te querer e não te ter, entre a presença e a ausência, entre a sua voz e o seu silêncio. As horas seguiram arrastadas, solitárias. Eu segui te querendo o a cada minuto, ainda te quero, por sinal. 


Te quero aqui e agora, para sempre e em todas as outras vidas que vierem. Te quero comigo nas conquistas grandiosas, mas também nos detalhes, no abrir de olhos pela manhã, no banho às vezes compartilhado, nas gargalhadas que damos juntos feito duas crianças, nos abraços apertados e demorados, nos beijos carinhosos e doces, mas também naqueles ardentes e sedentos. Te quero inteiro, te quero profundo, te quero intenso. O que definitivamente não quero mais é ficar sem você.




segunda-feira, 4 de maio de 2026

Te quero


Te quero 

verdadeiramente

profundamente

intensamente

infinitamente

indistintamente

indefinidamente



Te quero

sem reservas

sem medida

sem limites

sem segredos



Te quero 

para além da dúvida

para além do medo

para além das regras

para além das normas



Te quero

com urgência

com prevalência

com insistência

com excelência



Te quero

mesmo quando não te quero

mesmo quando exagero

quando me desespero

quando me desconcerto



Te quero

simplesmente

vorazmente

inevitavelmente

irremediavelmente

descomedidamente



Te quero 

com a alma, 

com o corpo 

e com a mente.



E isso é tudo.

E você me basta.

Porque com você por perto

o resto é excesso.


 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Várias versões de mim

 


Descubro que em mim, há várias versões. Aquela tímida e reservada, prefere os finais de semana quietos, vazios. Filmes em casa, livros lidos, sol na varanda, silêncios, mantras, yoga, paz. Talvez essa versão seja mais profunda, intensa e reflexiva. Talvez ela escolha a solidão, prefira os momentos a sós, sem compromisso, sem convites, sem ligações, sem mensagens.


Nos dias mais agitados, há uma versão expandida, colorida, solar, carnavaleca. Essa fase me pede energia, movimento, liberdade, sorrisos. Nesse período, gosto da rua, da noite, de batons coloridos, paetês, brincos grandes, cabelos ao vento, dos excessos. Me vejo irrefletidamente solta, leve, flutuante, desapegada.


Em alguns momentos, percebo uma versão sombria. Já essa, me enche de perguntas, me exige respostas, me cobra postura, coerência, verdade. É uma versão chata, que me julga, me aponta o dedo, me pede explicações para cada passo que eu dê, para cada sim e cada não. Me vejo densamente pensativa, estática, sem ação. Tudo me dá medo: o presente e o futuro, as escolhas, os encontros, os desencontros. Todo dia parece uma noite fria de inverno.


Em outros momentos, sou surpreendida pela menina chorona, profundamente emocionada. Tudo a toca. O sol, a lua, a chuva, a brisa, o pássaro que canta, a rosa que desabrocha, o cachorro que dorme. Nesses dias, ela se sente à flor da pele. Tudo é presente demais, profundo demais, forte demais, bonito demais. Seus olhos permanecem frequentemente marejados. São dias em que ela escolhe dormir mais cedo, chorar escondida no banheiro ou no quarto escuro. 


Cada versão me ensina um pouco de mim, quem eu sou, como me sinto, do que preciso. Vou me descobrindo aos poucos várias em uma. Una e trina, grande e pequena, profunda e rasa, quieta algumas vezes e agitada em outras. Firme ou impulsiva, dura ou flexível, inteira ou aos pedaços. Nenhuma delas é melhor. Nenhuma delas escolhe vir ou partir. Uma vai dando lugar à outra numa dança harmônica e caótica ao mesmo tempo. Sei que com cada uma delas, aprendo mais de mim. Me invento, me reinvento, me silencio, grito, choro. E passa. E sobrevivo. 




terça-feira, 28 de abril de 2026

Destino brincalhão



O destino, brincalhão, monta e desmonta peças de duas vidas, destrói cenários, os reconstrói. Sinaliza caminhos retos e esguios que, de repente, dão em outros tortuosos, mas completamente sedutores e irrecusáveis. Promete calmaria até o fim do dia, mas me surpreende com uma tempestade no meio da tarde que me invade a casa, a cama, o corpo. Traça rotas incalculáveis que me apontam para o desconhecido e quando dou por mim, me vejo diante de imagens paradisíacas, pouco exploradas, mata virgem, privilégio de poucos.


Embora o destino me presenteie sempre com o inesperado, eu confio nele. Na verdade, nunca fui dada ao previsível, ao relógio, ao calendário. Eu gosto mesmo é de chegar atrasada, que metam o pé na porta e entrem com tudo, que desarrumem minha cama e os meus cabelos. Prefiro quem se arrisca e aceita vir nadar nesse mar profundo a quem escolhe seguir caminhando pela margem, molhando apenas os pés. Gosto mesmo dos estranhos, dos insanos, dos profanos. 


Quero mais que me arranquem todas as verdades, que me arranquem as roupas, que caiam por terra todos os dogmas e as certezas. Gosto de quem muda de opinião, de quem não aceita como resposta um “não” e corre atrás do “sim”. Gosto de quem topa minhas loucuras, dos que me acompanham em cada aventura e gargalhem sem limites. Me atraem aqueles que fogem ao normal, ao formal, ao natural. Os que falam alto, de boca cheia, os que roncam, por que não? Amo os questionadores, anticapitalistas, comunistas. 


Quero pular de bungee jump, subir os Himalaias, saltar de para-quedas. Quero experimentar o novo, o desconhecido, o inusitado. E o destino, brincalhão que é, me apresenta você, que chega e revira meu mundo do avesso, do jeito que eu gosto. Surpresa e confusa, me vejo diante do abismo, sorrindo, sem saber se é queda ou voo. Porque com você o desconhecido é sedutor, o medo vira coragem e cada incerteza um convite.


Pensando bem, talvez o destino não seja apenas brincalhão. Talvez ele seja cúmplice. Talvez ele ria baixinho enquanto nos observa desafiar todas as rotas traçadas, rasgar mapas, quebrar bússolas, parar os relógios, redesenhar nossa história, desbravar lugares desabitados. E se for para me perder, que seja assim, em você, no inesperado, no que não tem nome nem etiquetas, no que não se encaixa, no que ainda não inventaram. Posso morrer hoje, mas que seja você quem me enterre.




terça-feira, 14 de abril de 2026

Nós

Nossas vidas se entrelaçam como duas pontas de uma linha que se encontram no ar. Ele e eu. Juntos: nós. Nós que não se desfazem. Que se apertam. Que se ajuntam. Que se ajustam. Que se fortalecem. Que se firmam e se reafirmam.


Desenho os moldes de um futuro incerto. E me lanço. Em cada traço riscado cuidadosamente, há amor e desejo. Há vontade e prazer. Insinuo cenas diversas, crio roteiros e figurinos em que somos nós os protagonistas. Aponto para o amor que transcende, transgride, transpõe. Romeu e Julieta, Heloísa e Abelardo, Tristão e Isolda. 


Nesse roteiro, os nós apontam para um desfecho que vence: as imposições sociais, o amor tradicional, o único formato “possível”. Aceito o desafio de tecer essa história e, pouco a pouco, dia a dia, a desenho, a escrevo, bordo os detalhes. Às vezes apago, desmancho, retrocedo, reescrevo. Me afasto, retorno, a vejo com distância e gosto do que se apresenta no papel. Sinto orgulhosa da história que escrevo ou que escrevemos juntos. Ela me parece linda e inspiradora. Revolucionária também. E tudo isso é tão mágico e perfeito porque há ele também. Há nós.




segunda-feira, 13 de abril de 2026

Expectativas


Quantos dias faltam para o nosso próximo encontro?

Quantas horas esperar para o nosso próximo abraço?

Será que demora muito o nosso primeiro beijo?


Como seria o toque das suas mãos ao encostar meu corpo?

Dos seus beijos quentes, qual seria o gosto?

No ápice do prazer, como seria o gozo?


Como me olharia ao amanhecer?

Que cheiro tem seu corpo colado ao meu?

Qual a textura do nosso suor quando se misturam?


Com que intensidade apertaria a minha cintura?

Que escultura formaria nossos corpos enroscados?

Quanto tempo ficariam nossas línguas entrelaçadas?


Como eu me sentiria com o seu olhar fixo ao meu?

Com suas impressões digitais no meu corpo, quem me tornarei?

Depois desse encontro, quem será capaz de novamente reacender minha alma?





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Inventário de ausências



O que te faz levantar da cama todo os dias?

O que te move?

O que te emociona? 

O que te toca? 

O que te faz querer seguir? 

Da infância, quais sonhos ainda permanecem?



Por receio, por medo ou vergonha, 

quantos beijos não foram dados? 

Quantos braços afastados do abraço? 

Quantos “eu te amo” ficaram por dizer? 

Quantas memórias propositalmente esquecidas? 

Quantas mensagens, mesmo escritas não foram enviadas?



Quantos convites não realizados? 

Quantos encontros desmarcados? 

Quantos “adeus” impostos pelo destino? 

Quantas despedidas escolhemos, mesmo amando muito?

Quantas lágrimas não derramadas por querer parecer forte? 



Quantas cartas não escritas?

Quantas flores não entregues? 

Quantos amores não correspondidos? 

Quantos “até logo” suspensos no tempo?

Quantos “nãos” proferidos quando o coração gritava um “sim” bem alto? 



Quantos laços rompidos?

Quantos sorrisos desfeitos?

Quanto brilho no olhar apagado?

Quantos planos dispersos no ar?

Quanta vida ainda por viver?



Onde você está?

Cadê você?

Aonde deseja ir?

O que falta realizar?

Não vá! Fique!

Ame! Mais uma vez. 

Não se cale. Grite!

Sinta! Dor ou amor! Mas sinta!

Volte a viver!

Submerja de volta à superfície.

Respire, tome fôlego, mas, por favor, fique!

Enquanto houver pulsação

Respiração

Vibração



Ainda há escolha

Ainda há palavra

Ainda há gesto

Ainda há amor

Ainda há vida

Ainda há você