quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Inventário de ausências



O que te faz levantar da cama todo os dias?

O que te move?

O que te emociona? 

O que te toca? 

O que te faz querer seguir? 

Da infância, quais sonhos ainda permanecem?



Por receio, por medo ou vergonha, 

quantos beijos não foram dados? 

Quantos braços afastados do abraço? 

Quantos “eu te amo” ficaram por dizer? 

Quantas memórias propositalmente esquecidas? 

Quantas mensagens, mesmo escritas não foram enviadas?



Quantos convites não realizados? 

Quantos encontros desmarcados? 

Quantos “adeus” impostos pelo destino? 

Quantas despedidas escolhemos, mesmo amando muito?

Quantas lágrimas não derramadas por querer parecer forte? 



Quantas cartas não escritas?

Quantas flores não entregues? 

Quantos amores não correspondidos? 

Quantos “até logo” suspensos no tempo?

Quantos “nãos” proferidos quando o coração gritava um “sim” bem alto? 



Quantos laços rompidos?

Quantos sorrisos desfeitos?

Quanto brilho no olhar apagado?

Quantos planos dispersos no ar?

Quanta vida ainda por viver?



Onde você está?

Cadê você?

Aonde deseja ir?

O que falta realizar?

Não vá! Fique!

Ame! Mais uma vez. 

Não se cale. Grite!

Sinta! Dor ou amor! Mas sinta!

Volte a viver!

Submerja de volta à superfície.

Respire, tome fôlego, mas, por favor, fique!

Enquanto houver pulsação

Respiração

Vibração



Ainda há escolha

Ainda há palavra

Ainda há gesto

Ainda há amor

Ainda há vida

Ainda há você





terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Com ele não


Acostumada a encontros casuais, ela já não espera muito mais dos relacionamentos a que se entrega. Aprendeu a ser fria, calculista e racionalizar a emoção. Entendeu, a duras penas, que não adianta plantar flores em terras inférteis. Já não cria expectativas e com todos aqueles que chegam, ela espera sempre o momento em que se vão. Percebeu com as experiências que não adianta o que faça, nada é capaz de fazê-los ficar, a menos que desejem. Quanto ao desejo, não há muito o que se fazer. Ou ele está presente ou não. Não adianta promessas, beijos calientes, noites ardentes, fingir desinteresse, se mostrar ocupada demais. Nada disso a torna mais interessante.


Já cansada, ela desistiu dessa busca incessante. Baixou a guarda, tirou a maquiagem e saiu em busca do que fazia sentido para si. Ela alçou voos inimagináveis, para dentro e para fora. Mergulhou profundo em si, se permitiu sofrer mais, amar mais, se amar mais, deixou doer, a ferida cicatrizar, aprendeu a dizer “não”, quis fugir algumas vezes, mas descobriu que não havia para onde escapar. Seus medos sempre sabem onde está. Ela se entregou ao desconhecido, se deixou levar, se permitiu viver, errar, se arrepender, voltar. Ela cresceu.


Ela se abriu para vida e seus mistérios. Inteira, pura, profunda, verdadeira como costumava ser. Já não esperava grandes feitos do destino, já não fazia planos mirabolantes. Ela buscava o singelo, o pueril, o cotidiano. Aprendeu a ser ela mesma, sem máscaras. Quem quiser, ficará mesmo com todos os seus defeitos, ela pensava. E aprendeu a não mais se diminuir para caber. Entendeu, com o tempo, que não era todo mundo que a entendia, que a alcançava, que a tocava. Depois disso, aprendeu a não forçar nem insistir para que ficassem. Ela aprendeu a ler os sinais do Universo e entendeu que tudo tem uma razão de ser. Já não luta mais contra o destino, mas sim a favor dele. Ela confia nos desígnios divinos e isso a deixa leve e tranquila.


Depois de tantas experiências mal sucedidas, ela descobriu que, embora com os outros o amor nunca fizesse morada, com ele não. Com os outros houve ghosting, com ele não. Com os outros, havia sempre desinteresse. Com ele não. Os outros preferiam não ficar, mas ele não. Os outros, em algum momento, sempre a tratavam mal, mas ele não. Os outros mentiam, mas ele não. Os outros a enganavam, já ele não. Os outros, de uma forma ou de outra, nunca a escolhiam, mas ele não. Para os outros, ela era só mais uma, para ele não. Os outros a viam comum, ele não. Ele via nela o extraordinário, o transcendental, o ilimitado, o extemporal, o profundo, o belo, o Universo inteiro, o indizível. Para ele, ela era especial, para os outros não. E foi, então, quando ela descobriu que os outros eram só os outros, mas ele não.





quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Paradoxos

Ela não conhece seu jeito de amar. Ela se enche de perguntas. Seu coração não encontra respostas. Ele vacila, titubeia, avança, retrocede, se perde. Ela se sente confusa, sem rumo, sem norte, sem sul. Ela tenta não se render, não quer se abandonar. Ela se prometeu nunca mais desaparecer de si. Mas por vezes, falha. 


Algo dentro de si se degladia. Há uma luta intensa, interna, invisível. Mas ela não quer lutar. Seu coração só quer paz. Sua mente vulcânica nos últimos tempos sente falta de vagar por dias serenos, tranquilos, de silêncio e quietude. Ela não quer brigar, apenas seguir em equilíbrio em busca daquilo que a preenche. Mas ele a preenche. E por isso, todo esse paradoxo, toda essa dissonância, toda essa divergência.


E ela tem aprendido com relativo sucesso a lidar com as dualidades impostas: quente e frio, luz e escuridão, ordem e caos, razão e emoção, força e vulnerabilidade, dor e amor. Quando quente, busca ar fresco. Se frio, se refugia em casa em cobertores e mantas. Quando há luz, óculos escuros. Se escuridão, acende uma vela. Se tudo em ordem, segue seus planos. Se há caos, pausa. Ela tem aprendido a dosagem certa para uma vida equilibrada. Ele tem aprendido a ler seus sinais. Entendeu que ela é lua adversa. 


Quando dói muito, ela faz um curativo, seca as lágrimas e vai. Mesmo com dor, ela sorri. Aprendeu que um sorriso cura muita coisa. Ela tem medo de se arrepender. Por isso, mesmo nos dias nublados e chuvosos, ela insiste em sair de casa. Aprendeu a contemplar cada paisagem. Descobriu que a natureza também tem suas dualidades: verão e inverno, dia e noite, sol e lua. Ela acha tudo isso tão belo. Por isso, descobriu que em si, em cada um dos seus paradoxos, há também beleza, sentido e força. Ela é natureza. A natureza é ela. Ambas se misturam. São uma só. E assim tudo se conecta, se encaixa, se enche de sentido. E ela segue, não porque não doa, mas porque aprendeu que existir é florescer mesmo com as raízes expostas. 






terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Eu tenho medo


Eu tive medo. E ainda tenho.

De me perder de mim

De ser pequenininho

De errar o caminho

De me faltar ar

e não saber voltar.


Eu tive medo. E ainda tenho.

Medo do depois

Do que vão dizer

De como vão me receber

De como vão me entender

Do que vão pensar

De como vão me julgar

Me olhar

Me amar.


Eu tive medo. Ainda tenho na verdade.

Mas meu maior medo mesmo é não viver.

Olhar para trás e me arrepender.

Tenho medo de ser covarde

Medo de não ir à luta,

De deixar molhar a roupa já enxuta.

Tenho medo de não ser gentil

De mim deixar ir o infantil, o pueril.


Meu maior medo mesmo é

Não viver esse amor

Não estar ao seu lado

Não experimentar seu calor

Não lhe fazer se sentir amado

Me limitar por dor.


Eu tive medo. E ainda tenho.

Mas meu maior medo mesmo é não amar.

E não descobrir, como tenho aprendido com ele,

quão revolucionário é o amor.






segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Nossa conexão


Eu sinto quando ele está triste. Sua tristeza me invade pungente como uma lança. E me dói um pouquinho. Me dói não ser capaz de arrancar-lhe a dor, de levar-lhe mais amor, de estar presente aonde for. Nessas horas, queria ser capaz de invadi-lo repentinamente, cheia de confetes e serpentinas, apitos, balões, brilhos e glitter enchendo-o de alegria.


Queria que ele pudesse, mais do que saber, sentir o quanto o quero bem, o quanto sua felicidade é também a minha, o quanto torço para que se realizem cada um dos seus sonhos mais íntimos e secretos. O quanto sinto orgulho do nosso encontro nessa vida. O quanto me sinto especial por termos nos conectado com tanta pureza, leveza e verdade.


Ele representa para mim a personificação masculina do amor, de um amor verdadeiro, de um amor cuidadoso, de um amor tranquilo. Um amor que merece ser brindado, celebrado, preservado, protegido. É um amor bonito, poético, sinestésico, cheio de sons, de cores, de cheiros, de sabores, de diferentes toques - no corpo e na alma.


Sinto que em algum lugar dentro de mim, eu o sonhei, o desejei, o esperei e em algum lugar do Universo, esse nosso encontro já existia, já havia sido desenhado. É como se todos os astros se alinhassem, numa órbita precisa, numa dança bela e imprevisível, nos provando que encontros mágicos existem para além dos filmes de Hollywood. 


Sua presença é cura, seu olhar é calmaria, seus abraços são lar, suas mãos proteção. Seu coração é lugar seguro. Sua existência no mundo é prova de que há uma sabedoria divina que nos conduz, que nos guia, que nos rege. Saber e viver tudo isso já valeu essa vida.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Superpoderes


Se eu tivesse superpoderes, te traria para mim, para mais perto, para dentro. Eu pararia o relógio toda vez que estivéssemos juntos. Eu passaria infinitas horas te ouvindo, te olhando, te admirando. Não haveriam despedidas, até logo, tchaus, adeus. Passaríamos os dias e as noites em uma serenata eterna, só eu e você.


Se eu pudesse fazer um único pedido para o mágico da lâmpada, eu pediria você, seus olhos atentos, seu toque suave, seus lábios macios, suas mãos que acalentam, seu corpo que esquenta, que abrasa e me abraça. Com você, não haveria frio, inverno ou qualquer queda de temperatura. Nossos corpos seriam nossos cobertores. 


Se eu pudesse transformar sonhos em realidade, faríamos um tour pelo mundo. Só você e eu. A lua nos assistiria incrédula. Bailaríamos até o amanhecer. Conheceríamos os lugares mais inusitados e distribuiríamos nossa poção de amor ao mundo. Seríamos Romeu e Julieta em uma versão contemporânea, nos amando sem rivalidades ou impedimentos.


Se eu pudesse me teletransportar, te acompanharia a cada instante. O que já faço em pensamento, faria em realidade. Brindaríamos nosso encontro com os nossos olhares que se cruzam a cada toque. Eu teria seus braços ao redor do meu corpo e minhas mãos fixas ao redor do seu. Eu te apertaria contra o meu peito. Teríamos os corações grudados. Eu me deixaria ali no ápice do encontro entre a paz e o amor.


Se fôssemos filólogos, construiríamos um dicionário do amor, só nosso. Nesse dicionário não haveria “ausência”. Adoração, admiração, afeição, alegria, amor, atenção, atração… esse seria nosso vocabulário, a começar pela letra “a”. Escreveríamos o dicionário dos amantes. Publicaríamos apenas palavras doces, românticas e gentis. 


Se eu tivesse superpoderes, te reproduziria em vários para que o mundo se enchesse de amor, de gentileza, de bondade e humanidade. Teríamos um mundo perfeito. O planeta se regeneraria com a sua presença multiplicada. Os pássaros cantariam alegres, as árvores balançariam suas folhas aplaudindo tanto amor, as águas seriam mais límpidas e os dias mais felizes. 


Se eu pudesse, eternizaria sua presença dentro de mim, para que toda vez que me faltasse amor, eu me preenchesse de você. Nunca mais haveria tristeza, medo ou solidão porque você é exatamente alegria, coragem e presença. Você é cuidado, é afeto, atenção. Você é privilegio, é presente, é tesouro, é sorte, trevo de quatro folhas, bilhete premiado, vento a favor, o alinhamento dos astros, presságio de bons tempos, roda da fortuna. Você é toda a certeza que o acaso me trouxe. 




quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Amar


Você me faz querer ficar

Me faz voltar a sonhar

Ser criança

Fazer bolinhas de sabão

Soprar dentes de leão

Suar as mãos


Eu fico querendo você

Te ver 

Te ter 

Te comer

Te beijar

Te abraçar 

Te amar 

Infinito 

Bonito 

Colorido 


Você me faz querer voltar 

Te procurar

Te encontrar

Cantar 

Sonhar 

Cada vez mais 

Te desejar 

Me entregar 

Me deixar 

Levar 


Com você

Me jogo no mar

Quero nadar

Mergulhar

Flutuar

e me afundar nesse amor


Quero surfar em você

Velejar com você

remar para você

pescar você

e navegar nas suas curvas


Você me faz querer te amar

Amar 

Ah mar!

A mais 

E mais 

É mais

A m a r