segunda-feira, 4 de maio de 2026

Te quero


Te quero 

verdadeiramente

profundamente

intensamente

infinitamente

indistintamente

indefinidamente



Te quero

sem reservas

sem medida

sem limites

sem segredos



Te quero 

para além da dúvida

para além do medo

para além das regras

para além das normas



Te quero

com urgência

com prevalência

com insistência

com excelência



Te quero

mesmo quando não te quero

mesmo quando exagero

quando me desespero

quando me desconcerto



Te quero

simplesmente

vorazmente

inevitavelmente

irremediavelmente

descomedidamente



Te quero 

com a alma, 

com o corpo 

e com a mente.



E isso é tudo.

E você me basta.

Porque com você por perto

o resto é excesso.


 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Várias versões de mim

 


Descubro que em mim, há várias versões. Aquela tímida e reservada, prefere os finais de semana quietos, vazios. Filmes em casa, livros lidos, sol na varanda, silêncios, mantras, yoga, paz. Talvez essa versão seja mais profunda, intensa e reflexiva. Talvez ela escolha a solidão, prefira os momentos a sós, sem compromisso, sem convites, sem ligações, sem mensagens.


Nos dias mais agitados, há uma versão expandida, colorida, solar, carnavaleca. Essa fase me pede energia, movimento, liberdade, sorrisos. Nesse período, gosto da rua, da noite, de batons coloridos, paetês, brincos grandes, cabelos ao vento, dos excessos. Me vejo irrefletidamente solta, leve, flutuante, desapegada.


Em alguns momentos, percebo uma versão sombria. Já essa, me enche de perguntas, me exige respostas, me cobra postura, coerência, verdade. É uma versão chata, que me julga, me aponta o dedo, me pede explicações para cada passo que eu dê, para cada sim e cada não. Me vejo densamente pensativa, estática, sem ação. Tudo me dá medo: o presente e o futuro, as escolhas, os encontros, os desencontros. Todo dia parece uma noite fria de inverno.


Em outros momentos, sou surpreendida pela menina chorona, profundamente emocionada. Tudo a toca. O sol, a lua, a chuva, a brisa, o pássaro que canta, a rosa que desabrocha, o cachorro que dorme. Nesses dias, ela se sente à flor da pele. Tudo é presente demais, profundo demais, forte demais, bonito demais. Seus olhos permanecem frequentemente marejados. São dias em que ela escolhe dormir mais cedo, chorar escondida no banheiro ou no quarto escuro. 


Cada versão me ensina um pouco de mim, quem eu sou, como me sinto, do que preciso. Vou me descobrindo aos poucos várias em uma. Una e trina, grande e pequena, profunda e rasa, quieta algumas vezes e agitada em outras. Firme ou impulsiva, dura ou flexível, inteira ou aos pedaços. Nenhuma delas é melhor. Nenhuma delas escolhe vir ou partir. Uma vai dando lugar à outra numa dança harmônica e caótica ao mesmo tempo. Sei que com cada uma delas, aprendo mais de mim. Me invento, me reinvento, me silencio, grito, choro. E passa. E sobrevivo. 




terça-feira, 28 de abril de 2026

Destino brincalhão



O destino, brincalhão, monta e desmonta peças de duas vidas, destrói cenários, os reconstrói. Sinaliza caminhos retos e esguios que, de repente, dão em outros tortuosos, mas completamente sedutores e irrecusáveis. Promete calmaria até o fim do dia, mas me surpreende com uma tempestade no meio da tarde que me invade a casa, a cama, o corpo. Traça rota incalculáveis que me apontam para o desconhecido e quando dou por mim, me vejo diante de imagens paradisíacas, pouco exploradas, mata virgem, privilégio de poucos.


Embora o destino me presenteie sempre com o inesperado, eu confio nele. Na verdade, nunca fui dada ao previsível, ao relógio, ao calendário. Eu gosto mesmo é de chegar atrasada, que metam o pé na porta e entrem com tudo, que desarrumem minha cama e os meus cabelos. Prefiro quem se arrisca e aceita vir nadar nesse mar profundo a quem escolhe seguir caminhando pela margem, molhando apenas os pés. Gosto mesmo dos estranhos, dos insanos, dos profanos. 


Quero mais que me arranquem todas as verdades, que me arranquem as roupas, que caiam por terra todos os dogmas e as certezas. Gosto de quem muda de opinião, de quem não aceita como resposta um “não” e corre atrás do “sim”. Gosto de quem topa minhas loucuras, dos que me acompanham em cada aventura e gargalhem sem limites. Me atraem aqueles que fogem ao normal, ao formal, ao natural. Os que falam alto, de boca cheia, os que roncam, por que não? Amo os questionadores, anticapitalistas, comunistas. 


Quero pular de bungee jump, subir os Himalaias, saltar de para-quedas. Quero experimentar o novo, o desconhecido, o inusitado. E o destino, brincalhão que é, me apresenta você, que chega e revira meu mundo do avesso, do jeito que eu gosto. Surpresa e confusa, me vejo diante do abismo, sorrindo, sem saber se é queda ou voo. Porque com você o desconhecido é sedutor, o medo vira coragem e cada incerteza um convite.


Pensando bem, talvez o destino não seja apenas brincalhão. Talvez ele seja cúmplice. Talvez ele ria baixinho enquanto nos observa desafiar todas as rotas traçadas, rasgar mapas, quebrar bússolas, parar os relógios, redesenhar nossa história, desbravar lugares desabitados. E se for para me perder, que seja assim, em você, no inesperado, no que não tem nome nem etiquetas, no que não se encaixa, no que ainda não inventaram. Posso morrer hoje, mas que seja você quem me enterre.




terça-feira, 14 de abril de 2026

Nós

Nossas vidas se entrelaçam como duas pontas de uma linha que se encontram no ar. Ele e eu. Juntos: nós. Nós que não se desfazem. Que se apertam. Que se ajuntam. Que se ajustam. Que se fortalecem. Que se firmam e se reafirmam.


Desenho os moldes de um futuro incerto. E me lanço. Em cada traço riscado cuidadosamente, há amor e desejo. Há vontade e prazer. Insinuo cenas diversas, crio roteiros e figurinos em que somos nós os protagonistas. Aponto para o amor que transcende, transgride, transpõe. Romeu e Julieta, Heloísa e Abelardo, Tristão e Isolda. 


Nesse roteiro, os nós apontam para um desfecho que vence: as imposições sociais, o amor tradicional, o único formato “possível”. Aceito o desafio de tecer essa história e, pouco a pouco, dia a dia, a desenho, a escrevo, bordo os detalhes. Às vezes apago, desmancho, retrocedo, reescrevo. Me afasto, retorno, a vejo com distância e gosto do que se apresenta no papel. Sinto orgulhosa da história que escrevo ou que escrevemos juntos. Ela me parece linda e inspiradora. Revolucionária também. E tudo isso é tão mágico e perfeito porque há ele também. Há nós.




segunda-feira, 13 de abril de 2026

Expectativas


Quantos dias faltam para o nosso próximo encontro?

Quantas horas esperar para o nosso próximo abraço?

Será que demora muito o nosso primeiro beijo?


Como seria o toque das suas mãos ao encostar meu corpo?

Dos seus beijos quentes, qual seria o gosto?

No ápice do prazer, como seria o gozo?


Como me olharia ao amanhecer?

Que cheiro tem seu corpo colado ao meu?

Qual a textura do nosso suor quando se misturam?


Com que intensidade apertaria a minha cintura?

Que escultura formaria nossos corpos enroscados?

Quanto tempo ficariam nossas línguas entrelaçadas?


Como eu me sentiria com o seu olhar fixo ao meu?

Com suas impressões digitais no meu corpo, quem me tornarei?

Depois desse encontro, quem será capaz de novamente reacender minha alma?





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Inventário de ausências



O que te faz levantar da cama todo os dias?

O que te move?

O que te emociona? 

O que te toca? 

O que te faz querer seguir? 

Da infância, quais sonhos ainda permanecem?



Por receio, por medo ou vergonha, 

quantos beijos não foram dados? 

Quantos braços afastados do abraço? 

Quantos “eu te amo” ficaram por dizer? 

Quantas memórias propositalmente esquecidas? 

Quantas mensagens, mesmo escritas não foram enviadas?



Quantos convites não realizados? 

Quantos encontros desmarcados? 

Quantos “adeus” impostos pelo destino? 

Quantas despedidas escolhemos, mesmo amando muito?

Quantas lágrimas não derramadas por querer parecer forte? 



Quantas cartas não escritas?

Quantas flores não entregues? 

Quantos amores não correspondidos? 

Quantos “até logo” suspensos no tempo?

Quantos “nãos” proferidos quando o coração gritava um “sim” bem alto? 



Quantos laços rompidos?

Quantos sorrisos desfeitos?

Quanto brilho no olhar apagado?

Quantos planos dispersos no ar?

Quanta vida ainda por viver?



Onde você está?

Cadê você?

Aonde deseja ir?

O que falta realizar?

Não vá! Fique!

Ame! Mais uma vez. 

Não se cale. Grite!

Sinta! Dor ou amor! Mas sinta!

Volte a viver!

Submerja de volta à superfície.

Respire, tome fôlego, mas, por favor, fique!

Enquanto houver pulsação

Respiração

Vibração



Ainda há escolha

Ainda há palavra

Ainda há gesto

Ainda há amor

Ainda há vida

Ainda há você





terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Com ele não


Acostumada a encontros casuais, ela já não espera muito mais dos relacionamentos a que se entrega. Aprendeu a ser fria, calculista e racionalizar a emoção. Entendeu, a duras penas, que não adianta plantar flores em terras inférteis. Já não cria expectativas e com todos aqueles que chegam, ela espera sempre o momento em que se vão. Percebeu com as experiências que não adianta o que faça, nada é capaz de fazê-los ficar, a menos que desejem. Quanto ao desejo, não há muito o que se fazer. Ou ele está presente ou não. Não adianta promessas, beijos calientes, noites ardentes, fingir desinteresse, se mostrar ocupada demais. Nada disso a torna mais interessante.


Já cansada, ela desistiu dessa busca incessante. Baixou a guarda, tirou a maquiagem e saiu em busca do que fazia sentido para si. Ela alçou voos inimagináveis, para dentro e para fora. Mergulhou profundo em si, se permitiu sofrer mais, amar mais, se amar mais, deixou doer, a ferida cicatrizar, aprendeu a dizer “não”, quis fugir algumas vezes, mas descobriu que não havia para onde escapar. Seus medos sempre sabem onde está. Ela se entregou ao desconhecido, se deixou levar, se permitiu viver, errar, se arrepender, voltar. Ela cresceu.


Ela se abriu para vida e seus mistérios. Inteira, pura, profunda, verdadeira como costumava ser. Já não esperava grandes feitos do destino, já não fazia planos mirabolantes. Ela buscava o singelo, o pueril, o cotidiano. Aprendeu a ser ela mesma, sem máscaras. Quem quiser, ficará mesmo com todos os seus defeitos, ela pensava. E aprendeu a não mais se diminuir para caber. Entendeu, com o tempo, que não era todo mundo que a entendia, que a alcançava, que a tocava. Depois disso, aprendeu a não forçar nem insistir para que ficassem. Ela aprendeu a ler os sinais do Universo e entendeu que tudo tem uma razão de ser. Já não luta mais contra o destino, mas sim a favor dele. Ela confia nos desígnios divinos e isso a deixa leve e tranquila.


Depois de tantas experiências mal sucedidas, ela descobriu que, embora com os outros o amor nunca fizesse morada, com ele não. Com os outros houve ghosting, com ele não. Com os outros, havia sempre desinteresse. Com ele não. Os outros preferiam não ficar, mas ele não. Os outros, em algum momento, sempre a tratavam mal, mas ele não. Os outros mentiam, mas ele não. Os outros a enganavam, já ele não. Os outros, de uma forma ou de outra, nunca a escolhiam, mas ele não. Para os outros, ela era só mais uma, para ele não. Os outros a viam comum, ele não. Ele via nela o extraordinário, o transcendental, o ilimitado, o extemporal, o profundo, o belo, o Universo inteiro, o indizível. Para ele, ela era especial, para os outros não. E foi, então, quando ela descobriu que os outros eram só os outros, mas ele não.