segunda-feira, 18 de maio de 2026

O que ficou do ontem

 

Hoje, ao sair de casa, encontrei nossos chinelos sob a mesa, despretensiosamente alinhados. Embora a chave já se encontrasse no trinco da porta, demorei para abri-la, enquanto parada, os olhava absorta, o pensamento no ontem. Os meus, rosa; os seus, azuis. Os meus, à esquerda; os seus, à direita, distantes um pouco, mas desejosos. Ambos ligeiramente na diagonal, em sentidos opostos, como se cruzassem olhares, como se quisessem se tocar. Pude perceber que conversavam, longamente, desde o momento em que foram deixados ali. Arrisco dizer que passaram a noite em claro, numa conversa sem fim. Naquele momento em que os vi, seguiam se olhando, havia ar de interesse e desejo. A conversa seguia. 


Ali, eles nos refletiam. Representavam dois corpos que se querem muito, sempre, o tempo todo, a todo instante, como se o amor pedisse urgência. Queria poder ficar com você assim como eles, sem que nos interrompam ou até que alguém os recolha e os guarde, como testemunhas do que vivemos ontem. Dessa vez, não serei eu a infeliz a pôr um fim à felicidade dos dois. Deixarei que fiquem ali, o tempo que for preciso, até que nossos pés os calce novamente e inevitavelmente voltem a se encontrar.


Ainda no ontem, parada diante dos dois pares de chinelo, me lembrei de como o tempo se dissolve quando estamos juntos, e como há algo de mágico em existir ao seu lado, em como nunca quero vê-lo partir e que inveja eu sentia daqueles chinelos que, diferentemente de nós dois, puderam atravessar a noite juntos e passarão também a manhã e a tarde e de novo a noite sem que ninguém interrompa aquela conversa silenciosa. Porque, pelo menos por enquanto, ainda precisamos partir. Já eles não.




Seis meses

 

Hoje se completam seis meses de um encontro transformador. Desde então, não sou mais a mesma. Me sinto outra, mais madura, mais mulher, mais autêntica, mais aberta à vida e suas surpresas, pronta para viver tudo o que o Universo tem a me oferecer. Ele tem esse poder de transformar as pessoas ao redor. Seu amor tem o poder de curar. E é assim que me sinto, hoje, seis meses depois: transformada, curada.


Os nossos encontros são sempre assim, recheados de amor, de encanto, de entrega, de vontade, de alegria, de desejo, de emoção. Me entrego a ele sem medo porque confio em seus braços. Com ele por perto, me sinto encorajada para ir além, sem limites, sem fronteiras, sem demarcação. Por ele, quero correr riscos, desafiar certezas, explorar o novo, colocar minha mão no fogo.


Há seis meses, desacreditada do amor, eu não imaginava o quanto poderia amar e ser amada, ser feliz e fazer alguém feliz, simplesmente por sem quem sou, sem máscaras, sem disfarces, sem fingimento. Assim, exatamente desse jeito, desarrumada, solta, risonha, bem boba às vezes, cheia de traumas e medos, meio militante, meio tímida, meio revoltada com o mundo. Hoje, essa Liliane deu lugar a uma nova versão, ainda boba, meio tímida, militante, revoltada, mas mais feliz, mais corajosa, mais segura, mais cheia de amor. E a cada dia me apaixono mais por ela.


Hoje se completam seis meses que o descobri, e descobrindo a ele, me descobri também. Hoje, por causa dele, aprendi o que é amar de verdade, fazer amor além dos corpos, mas com a alma, com o coração. Sinto que vivi em seis meses o que não havia vivido em uma vida inteira e sou tão grata e feliz por isso. Hoje sinto orgulho por ter me permitido viver esse amor, por me deixar ser amada por ele, por não me entregar às pressões externas e sim, ouvir a voz que pulsa aqui dentro de mim, clamando por amor porque ao encontrar o seu amor, hoje, seis meses depois, minha vida se enche de sentido.  Porque amar é isso, deixar que nos descubram, que nos desnudem, que nos transformem, que nos melhorem. E de repente, já não somos mais os mesmos, mas uma versão muito melhor de quem éramos para ele, para nós mesmas, para o mundo. 





terça-feira, 12 de maio de 2026

Inteira

 

Cada encontro nosso parece um evento, uma celebração, um brinde pela vida. Por mim, eu moraria ali, para o resto da vida. Nos nossos assuntos infindáveis, nas nossas risadas infantis, nas brincadeiras insistentes. Com ele, posso ser quem eu sou de verdade e isso torna tudo tão mais leve, tão mais fluido, tão mais gostoso. Sinto como se eu me preparasse a vida inteira para viver o que vivo agora, com ele, entregue, inteira, solta.


Quando chegada a hora da despedida, a gente não quer ir, a gente não quer se largar, se afastar, dizer tchau. E por isso, a gente enrola… e vamos nos deixando ali, como se fôssemos donos do tempo, como se as obrigações não nos esperasse, como se a vida fosse só festa e celebração. E confesso que gosto disso, de não corresponder as expectativas do trabalho, de chegar no final da manhã, de inventar desculpas para os meus atrasos, de me permitir ser um pouco irresponsável. Porque estar com ele é assim, me sentir adolescente, me sentir viva, sentir que a vida vale a pena.

Entre um encontro e outro, ele segue presente. Nas mensagens que trocamos o dia todo (de novo, como dois adolescentes), nas chamadas de vídeo ou voz, nas fotos que compartilhamos, nos áudios provocativos. Enquanto isso, a saudade aumenta. A vontade de estar perto vai ficando insuportável. O desejo de mais momentos juntos cresce. Fantasiamos nossos próximos encontros, como será, o que faremos, como faremos. 

Com ele por perto, a vida fica tão mais interessante. Tudo faz mais sentido. Nas nossas trocas e convívio, me sinto crescer, me agigantar. Gosto de me ver assim. Com ele junto, tudo se expande, o meu olhar alcança paisagens mais longínquas, percebo possíveis todos os meus sonhos, sinto fácil realizar tudo o que almejo. Ele me encoraja. Ele acredita em mim. Ele me apoia. E isso é tão lindo. Ele é lindo. Estar com ele é tão lindo. 

Ele me fez descobrir o amor verdadeiro. Ele me faz ser inteira, assumir para mim e para o mundo quem eu sou de verdade, sem medo ou receio. Estar com ele é isso: celebrar o inaudito, o comum e o incomum, a beleza do simples, a grandeza do agora, os prazeres comuns, as delícias do imprevisível, fazer descobertas de mim, dele, do mundo. Com ele, não é preciso me conter, me diminuir para caber, me esconder. Ao contrário, com ele, finalmente, posso ser muito, grande, imensa, sobrar e transbordar.



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Difícil

 

Te querer é fácil, difícil é aguentar sua ausência em mim. É um tormento não ter você por perto, não ter seus beijos todos os dias, nem seu olhar fixo em mim. É um sofrimento olhar para o lado direito da cama e não ter você, não ter suas mãos mim, não sentir o calor do seu corpo no meu, nem o som da sua respiração.


Te desejar todos os dias é fácil, difícil é ter que me despedir cada vez que você se vai. É não saber quando volta ou se volta. É a insegurança do futuro, do amanhã, do depois. É ruim o medo de te perder, mas pior é abrir mão de viver o agora com você com todas as alegrias e os prazeres que esse momento nos proporciona.


Te amar é fácil, difícil é suportar a distância imposta entre nossos corpos, é não poder te carregar comigo para onde quer que eu vá. Com você, aprendo que amar é liberdade, é escolha diária, é decidir ficar, mesmo quando ventos sopram em direções opostas. Tenho entendido que o amor não traz garantias, nem exclusividade, nem cobranças, nem imposições, mas traz decisão, desejo, vontade. 


Nem sempre é fácil, mas tem valido a pena todas as descobertas que tenho feito junto com você, todos os mergulhos internos e os externos também. Eu sinto medo às vezes, mas tenho aprendido a me lançar em espaços onde há cuidado, desejo e proteção, ainda que eu tenha compreendido durante uma vida inteira que o amor é algo diferente do que tenho vivido com você.


Entre o que é fácil e o que é difícil, entre o sonho e o possível, há você, há um amor que pulsa, há um desejo que arde, há vidas sedentas por viver. Te querer é fácil, te desejar é fácil, te amar é fácil, difícil é ter que me despedir toda vez que você se vai, é ter que esperar a volta, é lidar com a abstinência do seus beijos, da sua voz, do seu corpo, dos seus afogos e aguardar até que a gente exploda outra vez.




quinta-feira, 7 de maio de 2026

A presença da ausência

Hoje, acordei pensando em você. Te busquei do meu lado, na cama, e não te encontrei. Te queria comigo, corpo colado, as peles se tocando. Me permiti ficar ali por alguns minutos antes de me levantar. Me imaginei te dizendo algumas palavras de amor ao pé do ouvido. Você, ainda sonolento, ia se despertando… nos tocávamos e nos deixávamos imersos naquele momento, só nosso, como todas as manhãs que acordamos lado a lado.


Permaneci na cama por alguns minutos, insistindo em pensamento para que você se materializasse. Diferentemente das outras manhãs em que está comigo, hoje tudo parecia mais cinza, o dia mais triste, a casa mais silenciosa. Me forcei a me levantar e começar o dia, mesmo assim. A água quente do chuveiro queimava minha pele, carente da sua. O café parecia mais amargo do que de costume. A roupa amassada disfarçava a sua ausência em mim.


Te carreguei em pensamento durante todo o dia. Seu rosto, sua voz, sua pele, seu sorriso me invadiam a cada instante me lembrando onde mora a felicidade. Sua imagem me faz ter certeza de que nada mais vale a pena se você não está. Passei o dia assim entre te querer e não te ter, entre a presença e a ausência, entre a sua voz e o seu silêncio. As horas seguiram arrastadas, solitárias. Eu segui te querendo o a cada minuto, ainda te quero, por sinal. 


Te quero aqui e agora, para sempre e em todas as outras vidas que vierem. Te quero comigo nas conquistas grandiosas, mas também nos detalhes, no abrir de olhos pela manhã, no banho às vezes compartilhado, nas gargalhadas que damos juntos feito duas crianças, nos abraços apertados e demorados, nos beijos carinhosos e doces, mas também naqueles ardentes e sedentos. Te quero inteiro, te quero profundo, te quero intenso. O que definitivamente não quero mais é ficar sem você.




segunda-feira, 4 de maio de 2026

Te quero


Te quero 

verdadeiramente

profundamente

intensamente

infinitamente

indistintamente

indefinidamente



Te quero

sem reservas

sem medida

sem limites

sem segredos



Te quero 

para além da dúvida

para além do medo

para além das regras

para além das normas



Te quero

com urgência

com prevalência

com insistência

com excelência



Te quero

mesmo quando não te quero

mesmo quando exagero

quando me desespero

quando me desconcerto



Te quero

simplesmente

vorazmente

inevitavelmente

irremediavelmente

descomedidamente



Te quero 

com a alma, 

com o corpo 

e com a mente.



E isso é tudo.

E você me basta.

Porque com você por perto

o resto é excesso.


 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Várias versões de mim

 


Descubro que em mim, há várias versões. Aquela tímida e reservada, prefere os finais de semana quietos, vazios. Filmes em casa, livros lidos, sol na varanda, silêncios, mantras, yoga, paz. Talvez essa versão seja mais profunda, intensa e reflexiva. Talvez ela escolha a solidão, prefira os momentos a sós, sem compromisso, sem convites, sem ligações, sem mensagens.


Nos dias mais agitados, há uma versão expandida, colorida, solar, carnavaleca. Essa fase me pede energia, movimento, liberdade, sorrisos. Nesse período, gosto da rua, da noite, de batons coloridos, paetês, brincos grandes, cabelos ao vento, dos excessos. Me vejo irrefletidamente solta, leve, flutuante, desapegada.


Em alguns momentos, percebo uma versão sombria. Já essa, me enche de perguntas, me exige respostas, me cobra postura, coerência, verdade. É uma versão chata, que me julga, me aponta o dedo, me pede explicações para cada passo que eu dê, para cada sim e cada não. Me vejo densamente pensativa, estática, sem ação. Tudo me dá medo: o presente e o futuro, as escolhas, os encontros, os desencontros. Todo dia parece uma noite fria de inverno.


Em outros momentos, sou surpreendida pela menina chorona, profundamente emocionada. Tudo a toca. O sol, a lua, a chuva, a brisa, o pássaro que canta, a rosa que desabrocha, o cachorro que dorme. Nesses dias, ela se sente à flor da pele. Tudo é presente demais, profundo demais, forte demais, bonito demais. Seus olhos permanecem frequentemente marejados. São dias em que ela escolhe dormir mais cedo, chorar escondida no banheiro ou no quarto escuro. 


Cada versão me ensina um pouco de mim, quem eu sou, como me sinto, do que preciso. Vou me descobrindo aos poucos várias em uma. Una e trina, grande e pequena, profunda e rasa, quieta algumas vezes e agitada em outras. Firme ou impulsiva, dura ou flexível, inteira ou aos pedaços. Nenhuma delas é melhor. Nenhuma delas escolhe vir ou partir. Uma vai dando lugar à outra numa dança harmônica e caótica ao mesmo tempo. Sei que com cada uma delas, aprendo mais de mim. Me invento, me reinvento, me silencio, grito, choro. E passa. E sobrevivo.