quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Um tempo

 


Hoje quero dar um tempo 

Quero dar uma trégua

Dar o braço a torcer

dar a volta por cima

para dar um jeito 

e fazer dar certo.


Quero dar de ombros para o que passou

Dar ouvidos para o silêncio que a mente pede.

Cuidar do corpo que se enfraquece

E deixar que o peito enfim descanse e olvide.


Deixo o peso cair

A poeira baixar

O coração descansar

para voltar a sorrir 

e amar.


Quero dar um tempo de todo peso

Quero dar conta, bancar, pagar o preço

quero fazer dar bom, ouvir meu som, dar meu tom

E, enfim, encontrar toda a paz que que se perdeu em mim. 






Sem ele

 


Eu disse a ele que não seria capaz de sobreviver sem ele, mas hoje entendo que posso sim seguir a vida como antes, anterior à sua chegada. Por mim, por ele, por nós, eu insisto em viver. Por tudo o que aprendi com ele, por tudo o que ele me ensinou, por quão fortalecida me senti ao seu lado. Descobri com ele meu valor, a magia que carrego em mim, a bruxaria que corre nas minhas veias e o quanto posso ser desejada e amada por alguém em corpo e alma.

Sei também que a vida sem ele não seria a mesma. Mas ainda assim eu insisto em viver. Porque aprendi com ele que a vida vale muito a pena e esse legado em mim ele deixou. Pelo desejo de honrar a história que construímos juntos, de espalhar para o mundo nosso amor, de insistir para que as pessoas nunca desistam de amar, de se amar, mas acima de tudo pelo respeito e gratidão que tenho pelo nosso encontro.

Mesmo sem ele, eu o escolheria todos os dias, em cada detalhe, na humanidade que tem com os seres, na poesia no olhar, na harmonia que escolhe viver a vida, na gentileza com todas as pessoas, na bondade que há em suas escolhas, na presente presença, no amor latente com que se oferece.

Mesmo sem ele, eu seguiria escolhendo-o dia após dia, hora após hora porque hoje já nos misturamos e eu sou ele também. Hoje, carrego muito dele em mim. E acho que ele carrega um pouco de mim nos poros também. E me escolhendo, ele se faz presente. Já não tem volta. Ao escolher nos amarmos, nos tornamos um, uno, único. E isso ninguém poderá ser capaz de nos tirar. Porque amar é algo que sabemos fazer muito bem.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quando me sinto só

 


Quando me sinto só é quando me amo mais. Me amo tim-tim por tim-tim. Amo cada detalhe meu, cada imperfeição, cada cicatriz, cada mancha, cada marca. Acolho minhas quedas, meus erros, meus retrocessos, os pódios que não vieram, cada um dos “nãos” que recebi, inclusive aqueles disfarçados de “sim”. 


Me cuido, me brindo, me blindo. Me arrumo, me abraço, sorrio, canto, danço em frente ao espelho, “me preparo vibrante ante quem sou”. E, aos poucos, vou me lembrando tudo o que me trouxe até aqui, quem sou, quem fui, quem me tornei. Cumpro minha promessa de nunca mais me abandonar. E me recordo: “só tenho a mim, ninguém mais”.


Faço minhas escolhas e banco uma a uma. Vou recordando tudo o que caminhei para chegar até aqui. E sei: posso mais. E me escolho quantas vezes necessário for. Então, fico comigo. Fico quando tudo dá certo, mas também quando tudo parece desabar. Fico quando me sinto feliz, mas fico também quando cai uma tempestade dentro de mim, quando meu mundo inteiro desmorona. Fico quando tenho certezas, mas sobretudo quando só tenho perguntas. 


E há uma liberdade imensa ao perceber que posso perder os outros, mas não a mim. Porque cada vez mais, tenho a mim inteira. Inteira nas minhas escolhas. Inteira nos meus desejos. Inteira na minha entrega. Inteira nas minhas contradições. Inteira em quem sou. Inteira, completamente inteira e transbordante de mim. 




sábado, 19 de setembro de 2026

Depois do amor


Ontem, depois do amor, eu chorei. Chorei como há muito não acontecia. Chorei longamente lágrimas copiosas. Eu chorava como se uma parte de mim se esvaísse. Desejava que meus medos, dores e inseguranças se dissipassem ali, junto com o sal das lágrimas fartas.


Enquanto chorava, ele me abraçava fortemente, me dizia estar tudo bem. Eu sentia meu coração tocar seu peito, acelerado, enquanto minhas lágrimas molhavam abundantemente seus ombros. Seus braços me confortavam, seu olhar me acalmava e seu colo sempre me traz segurança para ser quem sou.


Ali, jogada na cama, apenas a toalha de banho me cobria. Foi assim que me vi inerte, completamente vulnerável, despida, de mim, de quem finjo ser, de quão forte tento transparecer. Ali, com ele, eu era só uma menininha indefesa, em busca de colo, querendo um lugar seguro para chorar, desejando amar e ser amada, sem julgamentos.


Equanto tentava me controlar (afinal de contas, nem eu mesma sabia por que motivos aquelas lágrimas insistentes caíam), ele cuidadosamente passava sua toalha pelo meu rosto na tentativa de enxugar o que parecia não ter fim. Naquele gesto tão simples havia tanto cuidado que me permiti chorar ainda mais. Na sua companhia, eu já não busco grandes explicações ou razões para o que acontece entre a gente. Com ele, basta sentir. 


No momento em que me desfazia, ele apenas ficou. E talvez fosse exatamente isso o que eu buscasse: alguém que escolhe ficar, apesar de. Talvez fosse isso que aquelas lágrimas desejassem, de um lugar seguro para existir ou expurgar de mim tudo aquilo que venho tentando organizar, compreender, domar. Nelas, havia dores que eu não verbalizo, medos que não controlo e o receio de perder o que me faz bem, mas sobretudo, a vulnerabilidade de amar alguém profundamente.


E amar é isso… meio paradoxal. É perceber que junto com a felicidade de amar há também o receio da perda. É perceber que o que nos faz tão bem encontra lugares mais frágeis dentro de nós. Agora eu vejo que naquele momento, eu era apenas eu, sem defesas, sem armaduras, sem proteção. Ali, eu pude simplesmente chorar, amar e ser amada. 




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Antes e depois de você

 

Às vezes penso que existe uma vida antes de você e outra depois que você chegou. Quando olho para trás, não me reconheço mais, como se a partir de agora só existisse uma versão: aquela que te quer, que te deseja, que não entende como era possível viver antes sem você, sem suas mensagens de amor, sem seu olhar, seus abraços, seus beijos, seu toque, seu cuidado. A versão de antes não sabia que era possível ser amada como tem sido desde que você chegou.


Aprendi a nadar no raso, a caminhar pela margem, proteger o coração, não criar expectativas ou aceitar a frustração de cada uma delas. Aprendi a contar comigo, e só comigo. Depois de tantos amores vazios, fugazes e fugidios, construí em mim proteção, mesmo que isso significasse seguir sozinha. E, assim, fui aprendendo a ser só. Aprendi a não negociar minha paz, a não me abandonar, nem por nada nem por ninguém, a não ter companhia ou a ser a minha única e melhor companhia. E me fortaleci. 


Até o momento em que você chegou. Desde então, já não sou mais a mesma. Meu mundo se abriu para você, para o amor, para o novo. Sinto como se eu escrevesse um capítulo inédito com um final feliz ou sem um fim talvez. Depois de você, tanta coisa mudou, minha vida se encheu de sentido, cada problema parece pequeno diante do tamanho do nosso amor. Eu já não sinto medo de arriscar, de seguir, de viver. Eu enfrento tudo para ter mais um dia de amor com você.


Tenho orgulho de quem me transformei depois de você. Gosto do que vejo hoje em mim. Gosto de como me vejo em mim. Quero mais dessa versão que se apresenta para o mundo com você, por você. Não sinto falta do que era, de quem eu era. Daqui para frente só quero você, quero nós, o próximo encontro, a próxima noite em claro com você do meu lado, os planos e os projetos para o futuro. Quero descobrir com você até onde nosso amor pode nos levar. E sou capaz de supor… 





domingo, 26 de julho de 2026

Inadequada


Não consegui dormir muito bem essa noite. Acordei algumas vezes, inquieta, pensativa, como se algo borbulhasse dentro de mim pedindo atenção. Embora fosse manhã de domingo, às 5h decidi me levantar. Me deixei ali, jogada no sofá, olhando pela janela, refletindo sobre a vida, sobre quem sou, em quem me transformo, em quem definitivamente não desejo ser.


Não desejo ser, por exemplo, alguém que o faça mal, que o faça perder tempo (a hora sim, mas o tempo não). Estive pensando, talvez gerar desafios a alguém não seja algo tão ruim assim. Eu, pelo menos, gosto de ser desafiada. E a cada um deles vencido, me sinto mais forte, mais capaz, mais resiliente. E quando a vista é bonita depois de chegar ao topo da montanha, eu percebo que valeu muito a pena cada segundo. Se enquanto subia, eu percebia a vegetação, os pássaros, as flores, sentia a brisa tocar meu rosto, o sol queimar minha pele, contemplar uma bela vista faz ainda mais sentido.


Ontem, depois da nossa conversa, algo em mim saiu do lugar. Me senti sem chão, perdida, sem rumo, sem prumo, inadequada. Sinto como se eu ocupasse agora um “não lugar”, como se lugar nenhum me comportasse. Eu já não caibo mais em muitos lugares e sinto que para o lugar que me destinam talvez eu não seja exatamente o que gostariam que fosse.


Enquanto olhava para o céu, desejei que ele estivesse ali, comigo, na minha cama, me esperando voltar. Doeu tanto vê-lo sair pela porta, numa despedida fria, que não é a nossa. Meu desejo era que ele ficasse, que nos amássemos longamente e talvez cochilássemos um pouco, porque quando estamos juntos, falta tempo para dormir. Logo depois que ele se foi, chorei. Chorei porque sinto que não o tenho como gostaria. Chorei porque mais uma vez me sinto insuficiente, apesar de todo o movimento até aqui. Me sinto desajustada, pequenininha e toda vez que me sinto assim doi tanto.


Hoje, decidi tirar o dia para mim, quietinha em casa. Talvez seja momento de silêncio para ouvir essa voz que às vezes sussurra baixinho. Talvez seja tempo de buscar meu lugar ou construí-lo. Mesmo inadequada e insuficiente, quando me conecto comigo reencontro lugares em que sou tão grande, em que não preciso me apertar ou me esticar para caber, espaços em que minha presença não requer paciência. E então volto a crescer. E isso me dá tanto alívio. 


Olhando para o céu, faço um único pedido. Desejo que a vista para ele faça valer a pena os desafios da subida porque a minha paisagem faz valer a pena cada segundo e, por isso, volto a subir a mesma montanha todos os dias.



segunda-feira, 20 de julho de 2026

Te quero "cerca"

Vem para cá

que a vida nos espera.

O tempo passa

e eu te quero “cerca”.


Vem comigo aonde eu for.

Para minha vida.

Para o meu mundo.

E fica.


Traz seus medos,

seus silêncios,

suas histórias guardadas.


Deixa fora

o que pesa, 

o que aperta,

o que prende.


Aqui dentro 

A gente sabe ser inteiro

e o que não souber

a gente aprende.


Fica nos meus dias comuns,

nas sextas sem planos,

nas noites de insônia

nos abraços sem fim,

nos convites improvisados

nos beijos roubados

pro almoço,

pros café, 

pro jantar, 

pra cama.


Vem,

se acerca de mim,

deixa eu te cuidar,

conhecer seus avessos,

suas idiossincrasias.


Chega mais perto.

Encosta sua vida na minha.

Eu te quero “cerca”

do meu mundo

dos meus dias

nos meus braços 

na minha cama

na minha casa.

Fica.
E me habita.