terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Com ele não


Acostumada a encontros casuais, ela já não espera muito mais dos relacionamentos a que se entrega. Aprendeu a ser fria, calculista e racionalizar a emoção. Entendeu, a duras penas, que não adianta plantar flores em terras inférteis. Já não cria expectativas e com todos aqueles que chegam, ela espera sempre o momento em que se vão. Percebeu com as experiências que não adianta o que faça, nada é capaz de fazê-los ficar, a menos que desejem. Quanto ao desejo, não há muito o que se fazer. Ou ele está presente ou não. Não adianta promessas, beijos calientes, noites ardentes, fingir desinteresse, se mostrar ocupada demais. Nada disso a torna mais interessante.


Já cansada, ela desistiu dessa busca incessante. Baixou a guarda, tirou a maquiagem e saiu em busca do que fazia sentido para si. Ela alçou voos inimagináveis, para dentro e para fora. Mergulhou profundo em si, se permitiu sofrer mais, amar mais, se amar mais, deixou doer, a ferida cicatrizar, aprendeu a dizer “não”, quis fugir algumas vezes, mas descobriu que não havia para onde escapar. Seus medos sempre sabem onde está. Ela se entregou ao desconhecido, se deixou levar, se permitiu viver, errar, se arrepender, voltar. Ela cresceu.


Ela se abriu para vida e seus mistérios. Inteira, pura, profunda, verdadeira como costumava ser. Já não esperava grandes feitos do destino, já não fazia planos mirabolantes. Ela buscava o singelo, o pueril, o cotidiano. Aprendeu a ser ela mesma, sem máscaras. Quem quiser, ficará mesmo com todos os seus defeitos, ela pensava. E aprendeu a não mais se diminuir para caber. Entendeu, com o tempo, que não era todo mundo que a entendia, que a alcançava, que a tocava. Depois disso, aprendeu a não forçar nem insistir para que ficassem. Ela aprendeu a ler os sinais do Universo e entendeu que tudo tem uma razão de ser. Já não luta mais contra o destino, mas sim a favor dele. Ela confia nos desígnios divinos e isso a deixa leve e tranquila.


Depois de tantas experiências mal sucedidas, ela descobriu que, embora com os outros o amor nunca fizesse morada, com ele não. Com os outros houve ghosting, com ele não. Com os outros, havia sempre desinteresse. Com ele não. Os outros preferiam não ficar, mas ele não. Os outros, em algum momento, sempre a tratavam mal, mas ele não. Os outros mentiam, mas ele não. Os outros a enganavam, já ele não. Os outros, de uma forma ou de outra, nunca a escolhiam, mas ele não. Para os outros, ela era só mais uma, para ele não. Os outros a viam comum, ele não. Ele via nela o extraordinário, o transcendental, o ilimitado, o extemporal, o profundo, o belo, o Universo inteiro, o indizível. Para ele, ela era especial, para os outros não. E foi, então, quando ela descobriu que os outros eram só os outros, mas ele não.





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