domingo, 26 de julho de 2026

Inadequada


Não consegui dormir muito bem essa noite. Acordei algumas vezes, inquieta, pensativa, como se algo borbulhasse dentro de mim pedindo atenção. Embora fosse manhã de domingo, às 5h decidi me levantar. Me deixei ali, jogada no sofá, olhando pela janela, refletindo sobre a vida, sobre quem sou, em quem me transformo, em quem definitivamente não desejo ser.


Não desejo ser, por exemplo, alguém que o faça mal, que o faça perder tempo (a hora sim, mas o tempo não). Estive pensando, talvez gerar desafios a alguém não seja algo tão ruim assim. Eu, pelo menos, gosto de ser desafiada. E a cada um deles vencido, me sinto mais forte, mais capaz, mais resiliente. E quando a vista é bonita depois de chegar ao topo da montanha, eu percebo que valeu muito a pena cada segundo. Se enquanto subia, eu percebia a vegetação, os pássaros, as flores, sentia a brisa tocar meu rosto, o sol queimar minha pele, contemplar uma bela vista faz ainda mais sentido.


Ontem, depois da nossa conversa, algo em mim saiu do lugar. Me senti sem chão, perdida, sem rumo, sem prumo, inadequada. Sinto como se eu ocupasse agora um “não lugar”, como se lugar nenhum me comportasse. Eu já não caibo mais em muitos lugares e sinto que para o lugar que me destinam talvez eu não seja exatamente o que gostariam que fosse.


Enquanto olhava para o céu, desejei que ele estivesse ali, comigo, na minha cama, me esperando voltar. Doeu tanto vê-lo sair pela porta, numa despedida fria, que não é a nossa. Meu desejo era que ele ficasse, que nos amássemos longamente e talvez cochilássemos um pouco, porque quando estamos juntos, falta tempo para dormir. Logo depois que ele se foi, chorei. Chorei porque sinto que não o tenho como gostaria. Chorei porque mais uma vez me sinto insuficiente, apesar de todo o movimento até aqui. Me sinto desajustada, pequenininha e toda vez que me sinto assim doi tanto.


Hoje, decidi tirar o dia para mim, quietinha em casa. Talvez seja momento de silêncio para ouvir essa voz que às vezes sussurra baixinho. Talvez seja tempo de buscar meu lugar ou construí-lo. Mesmo inadequada e insuficiente, quando me conecto comigo reencontro lugares em que sou tão grande, em que não preciso me apertar ou me esticar para caber, espaços em que minha presença não requer paciência. E então volto a crescer. E isso me dá tanto alívio. 


Olhando para o céu, faço um único pedido. Desejo que a vista para ele faça valer a pena os desafios da subida porque a minha paisagem faz valer a pena cada segundo e, por isso, volto a subir a mesma montanha todos os dias.



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