quarta-feira, 29 de abril de 2026

Várias versões de mim

 


Descubro que em mim, há várias versões. Aquela tímida e reservada, prefere os finais de semana quietos, vazios. Filmes em casa, livros lidos, sol na varanda, silêncios, mantras, yoga, paz. Talvez essa versão seja mais profunda, intensa e reflexiva. Talvez ela escolha a solidão, prefira os momentos a sós, sem compromisso, sem convites, sem ligações, sem mensagens.


Nos dias mais agitados, há uma versão expandida, colorida, solar, carnavaleca. Essa fase me pede energia, movimento, liberdade, sorrisos. Nesse período, gosto da rua, da noite, de batons coloridos, paetês, brincos grandes, cabelos ao vento, dos excessos. Me vejo irrefletidamente solta, leve, flutuante, desapegada.


Em alguns momentos, percebo uma versão sombria. Já essa, me enche de perguntas, me exige respostas, me cobra postura, coerência, verdade. É uma versão chata, que me julga, me aponta o dedo, me pede explicações para cada passo que eu dê, para cada sim e cada não. Me vejo densamente pensativa, estática, sem ação. Tudo me dá medo: o presente e o futuro, as escolhas, os encontros, os desencontros. Todo dia parece uma noite fria de inverno.


Em outros momentos, sou surpreendida pela menina chorona, profundamente emocionada. Tudo a toca. O sol, a lua, a chuva, a brisa, o pássaro que canta, a rosa que desabrocha, o cachorro que dorme. Nesses dias, ela se sente à flor da pele. Tudo é presente demais, profundo demais, forte demais, bonito demais. Seus olhos permanecem frequentemente marejados. São dias em que ela escolhe dormir mais cedo, chorar escondida no banheiro ou no quarto escuro. 


Cada versão me ensina um pouco de mim, quem eu sou, como me sinto, do que preciso. Vou me descobrindo aos poucos várias em uma. Una e trina, grande e pequena, profunda e rasa, quieta algumas vezes e agitada em outras. Firme ou impulsiva, dura ou flexível, inteira ou aos pedaços. Nenhuma delas é melhor. Nenhuma delas escolhe vir ou partir. Uma vai dando lugar à outra numa dança harmônica e caótica ao mesmo tempo. Sei que com cada uma delas, aprendo mais de mim. Me invento, me reinvento, me silencio, grito, choro. E passa. E sobrevivo. 




terça-feira, 28 de abril de 2026

Destino brincalhão



O destino, brincalhão, monta e desmonta peças de duas vidas, destrói cenários, os reconstrói. Sinaliza caminhos retos e esguios que, de repente, dão em outros tortuosos, mas completamente sedutores e irrecusáveis. Promete calmaria até o fim do dia, mas me surpreende com uma tempestade no meio da tarde que me invade a casa, a cama, o corpo. Traça rota incalculáveis que me apontam para o desconhecido e quando dou por mim, me vejo diante de imagens paradisíacas, pouco exploradas, mata virgem, privilégio de poucos.


Embora o destino me presenteie sempre com o inesperado, eu confio nele. Na verdade, nunca fui dada ao previsível, ao relógio, ao calendário. Eu gosto mesmo é de chegar atrasada, que metam o pé na porta e entrem com tudo, que desarrumem minha cama e os meus cabelos. Prefiro quem se arrisca e aceita vir nadar nesse mar profundo a quem escolhe seguir caminhando pela margem, molhando apenas os pés. Gosto mesmo dos estranhos, dos insanos, dos profanos. 


Quero mais que me arranquem todas as verdades, que me arranquem as roupas, que caiam por terra todos os dogmas e as certezas. Gosto de quem muda de opinião, de quem não aceita como resposta um “não” e corre atrás do “sim”. Gosto de quem topa minhas loucuras, dos que me acompanham em cada aventura e gargalhem sem limites. Me atraem aqueles que fogem ao normal, ao formal, ao natural. Os que falam alto, de boca cheia, os que roncam, por que não? Amo os questionadores, anticapitalistas, comunistas. 


Quero pular de bungee jump, subir os Himalaias, saltar de para-quedas. Quero experimentar o novo, o desconhecido, o inusitado. E o destino, brincalhão que é, me apresenta você, que chega e revira meu mundo do avesso, do jeito que eu gosto. Surpresa e confusa, me vejo diante do abismo, sorrindo, sem saber se é queda ou voo. Porque com você o desconhecido é sedutor, o medo vira coragem e cada incerteza um convite.


Pensando bem, talvez o destino não seja apenas brincalhão. Talvez ele seja cúmplice. Talvez ele ria baixinho enquanto nos observa desafiar todas as rotas traçadas, rasgar mapas, quebrar bússolas, parar os relógios, redesenhar nossa história, desbravar lugares desabitados. E se for para me perder, que seja assim, em você, no inesperado, no que não tem nome nem etiquetas, no que não se encaixa, no que ainda não inventaram. Posso morrer hoje, mas que seja você quem me enterre.




terça-feira, 14 de abril de 2026

Nós

Nossas vidas se entrelaçam como duas pontas de uma linha que se encontram no ar. Ele e eu. Juntos: nós. Nós que não se desfazem. Que se apertam. Que se ajuntam. Que se ajustam. Que se fortalecem. Que se firmam e se reafirmam.


Desenho os moldes de um futuro incerto. E me lanço. Em cada traço riscado cuidadosamente, há amor e desejo. Há vontade e prazer. Insinuo cenas diversas, crio roteiros e figurinos em que somos nós os protagonistas. Aponto para o amor que transcende, transgride, transpõe. Romeu e Julieta, Heloísa e Abelardo, Tristão e Isolda. 


Nesse roteiro, os nós apontam para um desfecho que vence: as imposições sociais, o amor tradicional, o único formato “possível”. Aceito o desafio de tecer essa história e, pouco a pouco, dia a dia, a desenho, a escrevo, bordo os detalhes. Às vezes apago, desmancho, retrocedo, reescrevo. Me afasto, retorno, a vejo com distância e gosto do que se apresenta no papel. Sinto orgulhosa da história que escrevo ou que escrevemos juntos. Ela me parece linda e inspiradora. Revolucionária também. E tudo isso é tão mágico e perfeito porque há ele também. Há nós.




segunda-feira, 13 de abril de 2026

Expectativas


Quantos dias faltam para o nosso próximo encontro?

Quantas horas esperar para o nosso próximo abraço?

Será que demora muito o nosso primeiro beijo?


Como seria o toque das suas mãos ao encostar meu corpo?

Dos seus beijos quentes, qual seria o gosto?

No ápice do prazer, como seria o gozo?


Como me olharia ao amanhecer?

Que cheiro tem seu corpo colado ao meu?

Qual a textura do nosso suor quando se misturam?


Com que intensidade apertaria a minha cintura?

Que escultura formaria nossos corpos enroscados?

Quanto tempo ficariam nossas línguas entrelaçadas?


Como eu me sentiria com o seu olhar fixo ao meu?

Com suas impressões digitais no meu corpo, quem me tornarei?

Depois desse encontro, quem será capaz de novamente reacender minha alma?