terça-feira, 28 de abril de 2026

Destino brincalhão



O destino, brincalhão, monta e desmonta peças de duas vidas, destrói cenários, os reconstrói. Sinaliza caminhos retos e esguios que, de repente, dão em outros tortuosos, mas completamente sedutores e irrecusáveis. Promete calmaria até o fim do dia, mas me surpreende com uma tempestade no meio da tarde que me invade a casa, a cama, o corpo. Traça rota incalculáveis que me apontam para o desconhecido e quando dou por mim, me vejo diante de imagens paradisíacas, pouco exploradas, mata virgem, privilégio de poucos.


Embora o destino me presenteie sempre com o inesperado, eu confio nele. Na verdade, nunca fui dada ao previsível, ao relógio, ao calendário. Eu gosto mesmo é de chegar atrasada, que metam o pé na porta e entrem com tudo, que desarrumem minha cama e os meus cabelos. Prefiro quem se arrisca e aceita vir nadar nesse mar profundo a quem escolhe seguir caminhando pela margem, molhando apenas os pés. Gosto mesmo dos estranhos, dos insanos, dos profanos. 


Quero mais que me arranquem todas as verdades, que me arranquem as roupas, que caiam por terra todos os dogmas e as certezas. Gosto de quem muda de opinião, de quem não aceita como resposta um “não” e corre atrás do “sim”. Gosto de quem topa minhas loucuras, dos que me acompanham em cada aventura e gargalhem sem limites. Me atraem aqueles que fogem ao normal, ao formal, ao natural. Os que falam alto, de boca cheia, os que roncam, por que não? Amo os questionadores, anticapitalistas, comunistas. 


Quero pular de bungee jump, subir os Himalaias, saltar de para-quedas. Quero experimentar o novo, o desconhecido, o inusitado. E o destino, brincalhão que é, me apresenta você, que chega e revira meu mundo do avesso, do jeito que eu gosto. Surpresa e confusa, me vejo diante do abismo, sorrindo, sem saber se é queda ou voo. Porque com você o desconhecido é sedutor, o medo vira coragem e cada incerteza um convite.


Pensando bem, talvez o destino não seja apenas brincalhão. Talvez ele seja cúmplice. Talvez ele ria baixinho enquanto nos observa desafiar todas as rotas traçadas, rasgar mapas, quebrar bússolas, parar os relógios, redesenhar nossa história, desbravar lugares desabitados. E se for para me perder, que seja assim, em você, no inesperado, no que não tem nome nem etiquetas, no que não se encaixa, no que ainda não inventaram. Posso morrer hoje, mas que seja você quem me enterre.




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