Descubro que em mim, há várias versões. Aquela tímida e reservada, prefere os finais de semana quietos, vazios. Filmes em casa, livros lidos, sol na varanda, silêncios, mantras, yoga, paz. Talvez essa versão seja mais profunda, intensa e reflexiva. Talvez ela escolha a solidão, prefira os momentos a sós, sem compromisso, sem convites, sem ligações, sem mensagens.
Nos dias mais agitados, há uma versão expandida, colorida, solar, carnavaleca. Essa fase me pede energia, movimento, liberdade, sorrisos. Nesse período, gosto da rua, da noite, de batons coloridos, paetês, brincos grandes, cabelos ao vento, dos excessos. Me vejo irrefletidamente solta, leve, flutuante, desapegada.
Em alguns momentos, percebo uma versão sombria. Já essa, me enche de perguntas, me exige respostas, me cobra postura, coerência, verdade. É uma versão chata, que me julga, me aponta o dedo, me pede explicações para cada passo que eu dê, para cada sim e cada não. Me vejo densamente pensativa, estática, sem ação. Tudo me dá medo: o presente e o futuro, as escolhas, os encontros, os desencontros. Todo dia parece uma noite fria de inverno.
Em outros momentos, sou surpreendida pela menina chorona, profundamente emocionada. Tudo a toca. O sol, a lua, a chuva, a brisa, o pássaro que canta, a rosa que desabrocha, o cachorro que dorme. Nesses dias, ela se sente à flor da pele. Tudo é presente demais, profundo demais, forte demais, bonito demais. Seus olhos permanecem frequentemente marejados. São dias em que ela escolhe dormir mais cedo, chorar escondida no banheiro ou no quarto escuro.
Cada versão me ensina um pouco de mim, quem eu sou, como me sinto, do que preciso. Vou me descobrindo aos poucos várias em uma. Una e trina, grande e pequena, profunda e rasa, quieta algumas vezes e agitada em outras. Firme ou impulsiva, dura ou flexível, inteira ou aos pedaços. Nenhuma delas é melhor. Nenhuma delas escolhe vir ou partir. Uma vai dando lugar à outra numa dança harmônica e caótica ao mesmo tempo. Sei que com cada uma delas, aprendo mais de mim. Me invento, me reinvento, me silencio, grito, choro. E passa. E sobrevivo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário