Hoje, ao sair de casa, encontrei nossos chinelos sob a mesa, despretensiosamente alinhados. Embora a chave já se encontrasse no trinco da porta, demorei para abri-la, enquanto parada, os olhava absorta, o pensamento no ontem. Os meus, rosa; os seus, azuis. Os meus, à esquerda; os seus, à direita, distantes um pouco, mas desejosos. Ambos ligeiramente na diagonal, em sentidos opostos, como se cruzassem olhares, como se quisessem se tocar. Pude perceber que conversavam, longamente, desde o momento em que foram deixados ali. Arrisco dizer que passaram a noite em claro, numa conversa sem fim. Naquele momento em que os vi, seguiam se olhando, havia ar de interesse e desejo. A conversa seguia.
Ali, eles nos refletiam. Representavam dois corpos que se querem muito, sempre, o tempo todo, a todo instante, como se o amor pedisse urgência. Queria poder ficar com você assim como eles, sem que nos interrompam ou até que alguém os recolha e os guarde, como testemunhas do que vivemos ontem. Dessa vez, não serei eu a infeliz a pôr um fim à felicidade dos dois. Deixarei que fiquem ali, o tempo que for preciso, até que nossos pés os calce novamente e inevitavelmente voltem a se encontrar.
Ainda no ontem, parada diante dos dois pares de chinelo, me lembrei de como o tempo se dissolve quando estamos juntos, e como há algo de mágico em existir ao seu lado, em como nunca quero vê-lo partir e que inveja eu sentia daqueles chinelos que, diferentemente de nós dois, puderam atravessar a noite juntos e passarão também a manhã e a tarde e de novo a noite sem que ninguém interrompa aquela conversa silenciosa. Porque, pelo menos por enquanto, ainda precisamos partir. Já eles não.



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