Naquele dia, não por acaso, ela tinha a sensação de que algo mudaria a sua vida para sempre. Ao se levantar, vestiu sua blusa azul cor do céu com os dizeres “bonjour madame”. Não sabia bem por que, mas achava que aquela cor lhe caía bem. Os brincos de rosas brancas combinavam com sua pele negra e os cabelos soltos davam volume para o seu rosto, escondendo, às vezes, seus olhos negros e tímidos.
Antes de sair de casa, passou no pescoço e punhos seu óleo essencial de alecrim, um dos seus preferidos. Conferiu a roupa no espelho, janelas fechadas, luzes apagadas, puxou a mochila e se foi. Algo vibrava diferente dentro de si. Era primavera, a estação do seu aniversário. Ela gostava daquele clima de quase verão. O dia estava ensolarado e os ipês ainda floridos.
No trabalho, cumprimentou quem encontrou no caminho e se dirigiu até sua sala para a jornada de todo dia. No intervalo para o almoço, desceu até o terceiro andar para a aula de pandeiro que acontecia às terças. No caminho, encontrou seu professor, que aparentemente triste, lhe deu um sorriso amarelo, na tentativa de disfarçar um dia ruim. Num ímpeto, ela lhe perguntou se tudo bem. Pela resposta que recebeu, percebeu que não. Ela quis abraçá-lo, mas lhe faltou coragem. A aula seguiu como de praxe.
Na volta para sua sala, uma mensagem, do professor, que dizia: “obrigado por me enxergar”. Sem entender nada, ela apenas lhe respondeu que desejava que ficasse bem. Depois daquela mensagem, todo o seu corpo arrepiava quando o encontrava. Embora às terças, do meio-dia às 13h, ele fosse seu professor de pandeiro, nos outros momentos eram colegas de trabalho, que se esbarravam sempre pelos corredores em cumprimentos evasivos e furtivos.
Ela sentia que desde aquele dia, ele também a olhava diferente. Passaram então a se abraçarem quando se encontravam. O toque dos corpos causava, nela, uma sequência de fogos de artifício que explodiam por dentro. Passaram, então, a trocar mensagens, livros, presentes, olhares, sorrisos, convites. O primeiro deles foi um café. Se deixaram ali, jogados, por horas, conversando desde filosofia e assuntos profundos a amenidades e besteiras. Faziam piadas um com o outro, riam de si mesmos. Toda vez que ele a tocava, seu coração quase escapava pela boca.
Esse foi o início da sua grande e mais longa história de amor real. Um amor que não nasceu de promessas e grandes feitos, mas de um olhar sincero, capaz de reconhecer no outro uma parte de si. Entre um convite e outro, um olhar e outro, um encontro e outro, o desejo e a vontade encontraram morada no afeto, no respeito, no amor de verdade. Um amor que ainda os habita e que todos os dias escolhe ficar.


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