terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Meu 9º B

Para mim, era tudo novo. Estar ali, ensinar Língua Portuguesa, lecionar para o nono ano, e o que é pior, entrar para uma turma, que embora desconhecida, já tinha notícias de que eu não seria bem-vinda.

Se foi fácil? Não, não foi!

Houve rejeição, houve receio, houve medo, mas foi desafiador. Estar ali a cada dia, convencê-los de que valeria a pena, de que havia boa intenção, de que precisavam me dar uma chance e de que poderíamos ser amigos era meu exercício diário.

E aos poucos todo o “não” foi dando lugar ao “talvez”, sendo transformado, lentamente, em tímidos “sins”, que também, lentamente, iam se fortalecendo e se transformando em “claro que sim”!

E foi aos poucos também que aprendemos a nos gostar e a nos respeitar. Se antes havia rejeição, agora havia recepção. Se antes eu era recebida com indiferença, ao final eu tinha certeza de que era esperada ansiosamente.

E ali, por incrível que pareça, virou o meu refúgio. Se algo não ia bem, era ali onde eu me fortalecia, era por meio deles que eu me sentia amada, com aquele amor despretencioso, com aqueles sorrisos despreocupados, pelas piadas, com os coraçõezinhos, com as piscadelas, com o “deixa eu apagar o quadro?”, com o “profe, você sabe que eu te amo!”, ainda que mentirosos, com os recadinhos no quadro, com os elogios... Ah... foram tantas histórias.

E hoje, uma relação rica e forte foi criada entre uma professora carente e uma turma cheia de amor.

Se eu chegava com o olho vermelho, sempre havia um que me perguntasse se estava tudo bem. Se eu estivesse nervosa, aparecia um para me acalmar. Se eu estivesse triste, havia uma piada, uma música. Se o problema era o estresse, era preciso um consenso e ao final tudo fluía bem.

Houve aprendizado sobre a Língua Portuguesa, mas mais que isso, houve respeito (ou uma tentativa de respeito, para alguns) às diferenças, ao novo, ao que se tem para oferecer, ao que se tem para falar, ao que se tem para doar. Houve muita vontade de acerto, houve orações, houve torcida e tenho certeza, vai haver saudade.

Hoje, um tempo depois, pude provar e sentir que valeu a pena. Embora o cansaço latente, as olheiras e as dores psicossomáticas, tudo valeu a pena por vocês! Vocês que preenchiam minha semana, seja com as bagunças, seja com as surpresas, seja com as confidências, com os conselhos trocados, era desafiador e gratificante estar com vocês, meu 9º B.

Desejo, insistentemente, que tudo valha a pena na vida de vocês. Quem chega, quem parte, quem fica. Desejo que a vida de vocês seja como as paredes da casa do avô do livro “Por parte de pai”, que tão bem vocês conhecem. Que seja cheia de histórias e que traga cor e novidade para quem leia, para quem se aproxime e para quem se interesse. E desejo, ainda mais fortemente, que eu faça parte de um pedacinho dessa parede que já possui histórias porque aqui dentro, para vocês, já há um lugar muito especial, não apenas nas paredes da minha vida e da minha história, mas dentro do meu coração. E se por acaso a saudade apertar, estou por aqui! 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Meu "mundinho"

A cada conversa, sinto como se levasse um tapa na cara. As palavras escolhidas, o olhar fuzilante, a voz oscilante e áspera me violentam e me violam. Saio de cada conversa menor, subtraída. E por isso, as evito e as recuso sempre. Porque todas elas me machucam.

Sinto como se fosse chicoteada sem direitos. Me sinto agredida com a escolha minuciosa de cada palavra. E nessas horas, penso que deveria me chamar Macabeia, como a da Clarice. E cada lágrima que se faz existir depois é a tentativa de um grito de liberdade. É o fruto inoperante de um se calar cheio de significados.

E querer que a relaçao permaneça bem depois de tudo isso é me pedir demais. Me exigir mudança de comportamento por quem nutre um câncer dentro de si é menosprezar minha inteligência e me acertar mais um golpe.

Me silencio, me escondo, me equilibro. Um tempo sozinha, alguns pensamentos, conexões, reflexões e um par de novas atitudes me devolvem meu sorriso, afastando lágrimas passageiras e toda dose de tristeza. E assim, depois de cada batalha, teoricamente, perdida, com a energia que me resta, retorno ao meu mundinho. Pequeno e frio, para os outros.  Mas ilimitado e imenso, para mim.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Talvez

Quantas mentiras guardadas ainda por dizer. Tanto medo amarrotado escondido debaixo do travesseiro. E as sujeiras empurradas para debaixo do tapete? Tanta correria, tanta gente ficando para trás, tantos planos inúmeras vezes adiados e os novos ansiosos por realização. As ideias se atropelam, os desejos se confundem e nada sai do lugar.

Uns vens, outros vão e a maioria sem destino, perdida. Olho para o lado e vejo um mundo de gente tentando se encontrar da forma mais improvável possível. O que fazer? Para onde ir? Que caminho seguir? Não sei. Ninguém sabe. Nada se sabe.


Perguntar agora não é a melhor opção. Talvez seja hora de parar, respirar, rever e reavaliar. Rever planos, reavaliar condutas, refazer desejos. Talvez seja hora de deixar para trás os sonhos de criança e colocar em prática os de mulher. Talvez seja hora de mudanças. Das mais singelas às mais radicais. Mudanças, amiga! Ou elas se tornam reais ou nada sairá do lugar.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Mais um ano

Mais um ano. De vida, de amor, de sonhos, de descobertas, de amadurecimento. Tanto tempo, tanta espera, tanta apreensão. E hoje vejo. É só mais um dia. Um dia feliz. Um dia especial. Um dia como os outros. Um dia normal. Um dia meu.

Pessoas chegaram. Pessoas partiram. Algumas mais intensamente.  Outras, à francesa. Amigos se casaram. Avós se foram. Filhos nasceram.  Boas notícias brindaram bons anos. Histórias coloriram dias. Encontros e confidências celebraram amizades eternas.

Houve dúvida, muita dúvida. Houve lágrimas. Gargalhadas. Arrependimentos. Vontade de voltar. Vontade de ficar. Vontade de partir.  Houve medo. Houve superação. Derrotas. Vitórias...

Existiu e ainda existirá carinho de mãe, piada de pai, abraço de tia, ciúmes de irmão, beijo de afilhada, brincadeira de primos, cuidado de amigos, lambida de cachorro. Sorrisos, colo, xingos... Segredos, torcida, saudade... Medo, lágrima, esperança... Socorro, brigas, pazes. Despedidas, partidas, confissões.

E haverá tudo isso por mais três décadas porque há amor. Amor familiar. Amor materno. Amor paterno. Amor de amigo. Amor de irmão. Amor de primas-irmãs. Amor pela vida. Amor por estar viva. Há vida ansiosa por ser vivida.

Hoje sinto que trinta é melhor que vinte. Vejo que hoje estou melhor que ontem. Me enxergo mais segura, mais mulher, mais madura. E percebo que não há limites. Não para aqueles que sonham, para aqueles que lutam, para aqueles acreditam.

E agora, chegada a hora, vejo: amanhã é só mais um dia. Um dia especial, um dia meu, mas só mais um dia. Um dia que por sinal, quero passar só, na minha própria companhia. Não para refletir, não para doer, não para sofrer. Mas porque esse é o melhor e maior presente que me posso dar. Dar a mim de presente para mim mesma.





quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Três é ainda melhor


Hoje, depois de um sonho realizado, me sinto parte de tudo isso. Parte dessa história, parte do relacionamento, das brigas, das alegrias, dos jantares a três, dos planos, do futuro...

Uma simples ligação e toda uma vida, aliás, duas vidas, se transformaram.  No telefone: “Li, fiquei com seu irmão.” Ah... meu irmão nãããooo! E a partir de um “só fiquei com você porque você é irmão da Li” e “só fiquei com você porque você é amiga dela” dois destinos, aparentemente opostos, se cruzaram para permanecerem juntos e não mais se afastarem.

Nos nossos programas a três houve cumplicidade: “Li, beba água. Muita água!”. Houve funk: “Ti-ta-nic! Titanic! Titanic!”. Houve muito rock: “Ohhhhh... I’m still alive”. Houve clichês: “Feio, chato, chato, feio.” Músicas em um inglês singular: “Time want to time tonight”. Houve vinhos, muita Big Apple, Mojitos, Malibus, Cubas, Caipirinhas, cervas, energético de quinta, água, muita água, incontáveis Ruffles, Kikão de fim de noite e mais uma infinidade de histórias para contar.

New House, Chalezinho, Canton, Jack, Fogão a Lenha, Tunico, Silvano, carnavais, bailes, encontro de motociclistas, festas de aniversário, jogos do Galão da massa. Todo e qualquer evento em todo e qualquer lugar estávamos lá, o casal: nós três. Dos desavisados surgia a pergunta: “Uai, Plínio! Duas?”. Dos João Sem Braço, a brincadeira: “Agora sim, formamos dois casais”. Dos amigos sempre muito prestativos, a carona: “Plínio, deixa que sua irmã eu levo”.

E foi aos poucos que deu certo um relacionamento a três: eu, meu irmão e minha amiga. Ou: eu, minha amiga e o namorado dela. Ou ainda: eu, meu irmão e minha cunha. E deu certo: os presentes por encomenda, os puxões de orelha, os desabafos, os colos, os trabalhos acadêmicos, as risadas de sempre, a bochecha dormente, os porres de toda vez, a amizade, a cumplicidade, o amor a três.

E hoje, por meio de um sonho realizado, faço parte de uma história escrita a seis mãos. Pela torcida, pela preocupação, pelos ciúmes às escondidas, pelo querer bem, pelo desejo de felicidade e de acerto que impulsiona, pela companhia reconfortante, pelos conselhos de uma aprendiz dados e recebidos, mas principalmente por todo amor.

Por um amor que não é de um nem de dois, mas de três. Um amor triplo, trino, tríduo. Um amor a três, ao cubo, elevado a terça potência. Um amor que vivifica, que se renova, que permanece, que perdura e que dia após dia se eterniza. Dizem que um é pouco, dois é bom e três é demais. Em alguns momentos, três também dá rock. Aliás, só rock não. Dá uma orquestra inteira porque quando tem amor de verdade, um é pouco, dois é bom, mas três é ainda melhor.






quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os do passado vêm

Tanta reviravolta e toda essa confusão mental me trouxeram paz. Paradoxal? Não. Nem um pouco. Foram necessários choros, tropeços, frustração, desabafos e uma dose de revolta para o pontapé inicial. A mudança não precisou ser radical, mas pontual. Independente de começar repentinamente, devagar, de onde menos se espera um dia é necessário que ocorra.

Aquele encontro, o reencontro, todas as conversas, a confiança depositada, os depoimentos lidos, os filmes assistidos, o passado, o presente, o suposto futuro somados a toda história construída aqui dentro me fizeram derrubar as paredes, invadir o lado oposto e avançar por um caminho previsivelmente conhecido.

Cansada das famosas conversas para boi dormir, de elogios infames, de encontros fúteis, de companhias vazias, opto por retornar ao país e à era de onde vim. Troco qualquer companhia masculina que seja, na ilusória tentativa de algo real, por uma conversa tola com a minha mãe. Dispenso qualquer balada com direito a nascer do sol e aquela ressaquinha de felicidade no dia seguinte em troca de uma manhã bem aproveitada com minha quase filha. Abro mão de qualquer bate-papo on line por uma conversa madura, mesmo que pelo telefone, com o meu melhor amigo. Troco os longes pensamentos por um verdadeiro momento de prece.

Pareço boba, antiquada, careta? Para mim, tanto faz. Me sinto mais intensa, mais eu mesma, mais real, mais próxima de todas as minhas realizações.

As experiências passadas serviram para me mostrar que tudo isso é pouco, que não me basta, que não me preenche, que é passageiro. Quero amigos verdadeiros, aqueles que ficam, mesmo distantes, e não esse conhecer de um dia só e nada mais. Quero momentos divertidos, mas não apenas intensos, e sim duradouros.


É... as coisas estão mudando e eu também. Mudei para voltar a ser quem eu era. Mudei para melhorar quem eu sou. Aqueles que me acompanharam até aqui, esses vêm comigo. Os que se perderam pelo caminho, sinto muito, mas esses não voltam mais.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Permita-me

Permita-me nos próximos dias não querer ninguém. Nem aquele ator de cinema que te arranca suspiros nem o amigo mais cobiçado do irmão com quem você sempre sonhou. Permita-me querer ficar só sem precisar dar longas e intermináveis explicações.

Se possível, evite também me indicar pretendentes, insistir em apresentar amigos e forçar um encontrozinho casual. Agradeceria também se não refizessem a pergunta “por que está só?”. Porque para aqueles que precisam do outro para se autoafirmar como alguém de valor, nada do que eu disser vai fazer sentido. Porque para aqueles que não conseguem ser a melhor companhia para si próprio, não estar acompanhada significa estar só.

Por favor, me sinto cansada de ouvir falar da minha foto, do sorriso, do corte de cabelo, da cor da pele, do corpo – para alguns, muito magra (homens gostam de ter onde pegar) – para mim, acima do peso. Melhor não entrarmos em discussão.  Prefiro sair do script, não ser a bola da vez, nada de papéis principais, nunca gostei de ser a protagonista.

Se sorrio, escondo alguma coisa. Se choro, as coisas não vão bem. Se sumo, algo está acontecendo. Se apareço, tenho algo para dizer. Se adoeço, é culpa da vida boêmia. Se não atendo o telefone, é porque estava aprontando alguma. Se invisto no boxe, estou agressiva. Se me entrego ao Yoga, sou zem ao extremo. E simplesmente viver, posso?

Posso ficar sozinha e ainda assim não me sentir vazio como você? Ou isso também incomoda? Posso por um tempo não querer sair, beber, virar as noites como antes? Ou sou obrigada a aceitar convites que não me satisfazem para agradar a quem não me interessa só para fingir popular?

Permita-me trocar os elogios por conversas sinceras. As cervejas por livros. As paqueras por amigos de verdade. As conversas virtuais por encontros reais. Todo o talvez por um não. O sábado badalado por um domingo de paz.

Permita-me recusar toda essa felicidade comprada, fria e fugaz pelo meu equilíbrio morno, sincero e duradouro.